Um ano para aprender

dezembro 12, 2020 /

 

*Dom Gílson Andrade

 

Em conversas com algumas pessoas ao longo deste ano ouvi dizer com certa frequência que este ano de 2020 é um ano para esquecer. Confesso que tal declaração nunca me deixou tranquilo, pois como cristão estou convencido do que o Apóstolo São Paulo afirma de que “tudo coopera para o bem dos que amam a Deus”. Por isso, eu prefiro dizer que este foi um ano para aprender.

Quando uma criança começa a frequentar as salas de aula, se depara com um mundo totalmente novo e nem sempre fácil de explorar. À medida que os anos passam vai compreendendo que o saber lhe parece infinito, e, depois, a vida vai comprovando que de aprender ninguém nunca se cansa nem esgota o saber.

Uma das belezas da comunidade humana é o saber que passa de geração a geração, no acúmulo do saber ao longo dos séculos e, também, a partilha daquilo que se sabe para que ninguém tenha que saber tudo. O saber sempre é partilhado.

Com essas premissas postas já compreendemos que o ano de 2020 nos pegou despreparados. Aprender requer humildade da parte de todos, tanto de quem ensina como de quem aprende. Sem uma boa disposição para acolher a novidade que se apresenta, corre-se o risco de acomodar-se na segurança daquilo que já se domina. Lembro-me sempre dos fariseus com quem Jesus conviveu. Nada mais o Senhor abrir a boca para ensinar e eles já pretendiam saber mais do que Ele. Desse modo, não foram capazes de acolher a novidade de Cristo.

É verdade que este tempo nos pegou despreparados. Ainda usando a linguagem escolar, pegou-nos sem uniforme e sem o material didático para entrar mais dispostos na “sala de aula”. Não tivemos tempo para comprar o “material escolar” e tivemos que entrar num campo do saber completamente novo. Quantas coisas estamos tendo que rever daquilo que pensávamos saber, quantas outras confirmamos o valor que elas sempre tiveram.

Cada um de nós deveria aproveitar este Advento, tempo de preparação para a chegada da novidade que nunca envelhece, Jesus Cristo, para fazer uma revisão das coisas boas que este ano trouxe e não apenas uma contabilidade das perdas.

Não quero com isso minimizar os “prejuízos”, os “lutos”, os sofrimentos, etc. Certamente sobre isso temos mais recursos para recordar. Porém, nos faltam ambientes que nos ajudem a fazer uma revisão dos ganhos.

Em nível de caminhada eclesial nos aproximamos mais de Deus, na pessoa do seu Filho Jesus, especialmente entre os mais próximos. A família, a casa, está tendo a oportunidade de ser lugar da experiência eclesial de partilha da Palavra, da fé e da caridade. Entendemos que ninguém, nenhum grupo sozinho consegue responder aos apelos deste tempo. O valor da comunhão mais nos atos que nas palavras foi uma realidade que pudemos tocar com nossas mãos. Abrir os olhos para enxergar, como o Bom Samaritano, tantas necessidades ao nosso redor, pode nos estar ajudando a tornar-nos uma Igreja que se preocupe mais em ter os sentimentos de Jesus, de compaixão e presença efetiva no meio dos sofredores. Nossas pastorais, certamente se colocaram em crise. Acostumados como estamos em tanto fazer, fomos convidados a visitar o nosso ser discípulos, a qualidade do nosso seguimento pessoal da pessoa de Jesus.

Tantas e tão grandes lições fomos aprendendo neste tempo. A história se encarregará de mostrar a mudança de época que este ano de 2020 representa. Mas nós que aqui estamos sabemos que a história se desenrola no nosso hoje. Portanto, deixemos Deus nos falar ao coração e entremos na escola dos discípulos para seguir aprendendo no ritmo deste tempo, que é tempo de salvação porque Deus continua perto.

 

*Dom Gilson é carioca, nascido no Méier e criado em Mendes no sul fluminense. Fez parte do clero de Petrópolis, estudou em Roma e foi bispo auxiliar de Salvador (BA). Nomeado pelo Papa Francisco em 27 de junho de 2018, tornou-se o 6º bispo da Diocese de Nova Iguaçu.