Se correr o bicho pega, se parar o bicho come

outubro 14, 2020 /

 

*Vicente Loureiro

 

Parece ser este o impasse a que o uso do automóvel, como conhecemos hoje, está sendo enfrentado em diversas cidades do mundo. Correr pelas vias urbanas está ficando cada vez mais difícil. Bilbao por exemplo, recentemente resolveu limitar em 30 km/h a velocidade dos carros em todas as suas ruas. Já vinha praticando esta limitação desde 2018, atingindo 87% delas. Ficar parado nelas, também vai ser cada vez mais custoso. Começa a crescer entre gestores urbanos o conceito de “desestacionamento”. Que significa coibir e taxar pesadamente o ato de parar carros no espaço público. Transformando em uso privado e exclusivo aquilo que é de todos.

Entre essas medidas extremas, outras da mesma forma restritivas ao uso sem limites dos automóveis, vem sendo adotadas com maior ou menor eficácia. O pedágio urbano, a implantação de faixas exclusivas para ônibus ou ciclovias e ciclofaixas, ou então para instalação de “patlets” ou alargamento de calçadas, são exemplos de iniciativas constrangedoras a presença do carro, circulando ou parado em áreas e avenidas de uso mais concorrido nas cidades. Não faltam portanto, práticas de aplicação de cartão amarelo ou vermelho as infrações resultantes do uso abusivo de automóveis nos espaços públicos, principalmente contra seus usuários mais fragilizados: os pedestres e ciclistas.

A limitação de velocidade imposta aos motoristas de Bilbao, segundo seus promotores, visa lograr a todos, inclusive turistas, uma cidade mais sustentável, tranquila, segura e humana. Apostam para isso nos resultados de longo prazo, como a redução do impacto sobre o meio ambiente e dos ruídos do trânsito. Além da melhoria da segurança viária e consequente diminuição do número de acidentes. Propiciando ainda, segundo as expectativas dos responsáveis pela adoção de tais limites, o aumento do uso do transporte ativo. Esbarram, entretanto, na necessidade de mudança nos hábitos de condução dos veículos: o desafio a ser vencido. Alegam a favor da medida, que a limitação de velocidade organiza melhor o tráfego. Reduz as colisões acabando com as micro contenções, fazendo assim a velocidade média praticada crescer.

Há controvérsias ainda entre especialistas sobre a forma de readequar a velocidade dos veículos nas áreas urbanas. Porém uma certeza os une. Pois é ela, sem  dúvida, a medida mais efetiva para evitar mortes e lesões no trânsito.

Estudos recentes realizados nas capitais brasileiras demonstram a má gestão do meio fio. Ou seja : o estacionamento no espaço público não é cobrado adequadamente. Ou quando é, pratica preço irrisorio. Com exceção de São Paulo e Rio, as tarifas praticadas na primeira hora nos estacionamentos rotativos nas demais capitais são em média 40% menor que o preço de uma passagem de ônibus. Significa dizer que o uso do transporte individual é mais barato do que o do coletivo. Um incentivo na contramão do recomendável para uma mobilidade melhor e mais inclusiva.

Mais grave do que os preços módicos dos estacionamentos em espaços públicos, é ver o uso deles, privatizado para um fim de baixo impacto social e reduzido resultado financeiro. O ideal seria ao invés de destiná-los aos automóveis, garantir seu usufruto as pessoas. Afinal os modos ativo e coletivo transportam muito mais gente. são menos poluentes custam muito mais barato. E podem ser implantados com ações rápidas e simples, dispensando grandes obras. De um jeito ou de outro, fica claro, a necessidade das cidades e seus moradores discutirem a relação, isso mesmo fazer DR, com os automóveis. O presente já exige. Não haverá futuro para eles sem limites.

 

*Vicente Loureiro,arquiteto e urbanista,doutorando em urbanismo na Universidade de Lisboa e autor do Livro Prosa Urbana.