São José: mensagem para o nosso tempo

março 19, 2021 /

*Dom Gílson Andrade

No fim do ano de 2020 fomos surpreendidos com a feliz notícia do “Ano de São José”,  entre 8 de dezembro de 2021 a 8 de dezembro de 2022, anunciado pelo Papa Francisco em razão do 150º aniversário da proclamação de São José como padroeiro universal da Igreja.

Quem teve a missão de ter Maria por esposa e ser pai adotivo de Jesus merece, de fato, um lugar de destaque no coração e na vida da Igreja. A figura do bom São José, esposo e pai, aparece muito discreta nos relatos dos evangelistas Mateus e Lucas, mas essa sua discrição é sinal da grandeza do papel que ele assume na história da nossa salvação. Ser esposo e ser pai são realidades que a maioria dos homens experimenta e que fazem parte das coisas mais simples da vida de um ser humano. Mas a normalidade desses papéis não tira a importância que eles trazem.

O Papa Francisco declara, na Carta Apostólica Patris corde (“Com coração de pai”), que além da motivação do sesquicentenário, a experiência da pandemia também serviu de inspiração para proclamar um ano dedicado ao Santo Patriarca. De fato, “pudemos experimentar, no meio da crise que nos afeta, que as nossas vidas são tecidas e sustentadas por pessoas comuns (habitualmente esquecidas), que não aparecem nas manchetes dos jornais e revistas, nem nos palcos do último espetáculo”, afirmou o Papa.

São José é um desses “homens simples”, escolhidos para escrever os grandes fatos da história de Deus com os seres humanos.

Deus é simples, dizem os filósofos, e a sua Revelação mostra que Ele prefere a simplicidade e também as pessoas mais simples. As Sagradas Escrituras mostram que foi através dos acontecimentos normais da história de um povo e do mundo inteiro que Deus quis se mostrar e revelar seu amor, seu poder e sua misericórdia.

Este ano certamente servirá para descobrir ou redescobrir a importância de São José para a nossa caminhada de cristãos e cristãs, valorizando a vida do dia a dia como lugar do encontro com Deus e da realização de nossa missão, especialmente na família. Lembra o Papa na Carta que “São José faz recordar que todos aqueles que estão, aparentemente, escondidos ou em segundo plano, têm um protagonismo sem paralelo na história da salvação” (Patris Corde, Introdução).

Os santos não são apresentados à nossa consideração só para que os invoquemos, mas também para que os imitemos. A leitura da Carta do Papa indica um caminho interessante de vivência da paternidade a partir de São José: pai na ternura, na obediência, no acolhimento, com coragem criativa, trabalhador e pai na sombra. Em um tempo de crise da paternidade, a sua figura pode inspirar gestos e atitudes novas para redescobrir a importância do “pai” na sociedade contemporânea.

Por outro lado, este ano também há de servir para renovar nossa devoção ao esposo de Maria. Santa Teresa, a partir da experiência de ter recorrido com sucesso à intercessão do Santo Patriarca, nos diz que “a outros Santos parece que Deus concedeu que nos socorra nesta ou naquela necessidade, ao passo que tenho experimentado que o glorioso São José estende o seu patrocínio a todas” (Livro da vida, VI, 6). Não é de admirar que a paternidade que ele exerceu sobre Jesus se estenda, de alguma forma, aos seus discípulos, socorrendo-nos nas múltiplas necessidades que fazem parte da vida.

Procuremos, irmãos e irmãs, ir a José neste ano. Este foi o conselho que o faraó deu no Egito aos hebreus que chegavam para buscar alimento em uma época de muita crise: “Ide a José” (Gen 41, 55). Lá se referia a José, ministro do faraó, filho de Jacó. Mas podemos aqui aplicar esse mesmo convite a todos nós. Neste tempo de tantas crises, recorramos a São José, e façamos a experiência de sua paternal intercessão.

*Dom Gilson é carioca, nascido no Méier e criado em Mendes no sul fluminense. Fez parte do clero de Petrópolis, estudou em Roma e foi bispo auxiliar de Salvador (BA). Nomeado pelo Papa Francisco em 27 de junho de 2018, tornou-se o 6º bispo da Diocese de Nova Iguaçu.