“Rio et Orbi”

janeiro 21, 2021 /

 

* Vicente Loureiro

 

Ser porta de entrada e saída de riquezas para o Brasil e para o mundo fez do Rio a principal metrópole do país durante o período colonial e a manteve no pódio até os tempos atuais, ainda que não mais na “pole-position”. Esta vocação consagrada lhe cravou no território marcas importantes. Estradas, ferrovias, portos, aeroportos, entrepostos, vilas e povoados foram plantados por conta do tráfego intenso e crescente das exportações e importações aportadas por aqui. O manejo remunerado de tantos bens colou no Rio imagem de arauto de novidades e, ao mesmo tempo, ponto de conexão mais cintilante do hemisfério sul. Ainda hoje a logística segue sendo uma das destacadas “praias” da cidade e região.

A industrialização, o comércio atacadista, os serviços bancários, etc., não brotaram e vingaram aqui por acaso. Tudo isso junto e misturado com a sede do poder político, até meados do século passado, levou o Rio a funcionar como uma espécie de Meca para brasileiros, em particular, e estrangeiros, de um modo geral, que desejavam fazer uma vida melhor. Uma urbanização vertiginosa, com quase um século de duração, fez da cidade uma metrópole. Com pelo menos 10 vezes mais população e com 70 km de raio de área urbanizada ou quase.

Claro que os ativos de infraestrutura logística, construídas ainda durante a colonização foram ficando obsoletos e tiveram que ser ampliados, modernizados e, em alguns casos, abandonados ou substituídos. Trechos de estradas ligando o Rio ao interior do Brasil, que há 50 anos atravessavam ainda áreas florestadas, de cultivo ou de pastagens no entorno imediato da cidade foram engolidas pelas golfadas da urbanização continuada. Inicialmente localizadas ao redor dos leitos ferroviários, logo em seguida tomaram as margens das rodovias enchendo-as de fábricas, empórios e principalmente gente, muita gente. A ponto de obrigá-las a absorver, para além das funções originais de transporte essencialmente de mercadorias, a de agora indispensáveis corredores de transporte intrametropolitano.

Os mais conhecidos e usados caminhos para São Paulo, Santos e o sul do país, ou para Minas e todo o interior, ou então para Bahia e o norte nordeste, vivem hoje esta acumulação de funções aos extremos, nos seus segmentos incrustados na região metropolitana, como pode ser confirmado na ilustração acima. Todos ligando o Rio ao Arco Metropolitano. Nesses trechos costumam circular, por dia, cinco a seis vezes mais veículos do que nos segmentos para além do Arco. Tal acúmulo impõe critérios e necessidades de manutenção, melhorias e sobretudo de operação completamente distintos. Ainda que tais pedaços de estradas configurem as mesmas BRs. E possam, como deseja o governo federal, compor o mesmo lote de concessões para os próximos 30 anos.

Tudo isso para dizer que as concessões federais de rodovias, ferrovias e outros ativos logísticos são bem-vindas. O Rio metropolitano não deve prescindir delas. O funcionamento pleno de toda essa infraestrutura é vital para sua economia e faz bem ao país. Entretanto, há que tratar os trechos das rodovias com funções distintas e sobrepostas de modo diferenciado. Os investimentos tão esperados, têm dimensões e urgências diferentes. E devem seguir uma lógica capaz de dar conta, não só de obter a menor tarifa de pedágio ou a melhor performance logística. Precisa incorporar, com destaque, a indispensável atividade metabólica metropolitana por eles conquistadas.

O traçado do Arco Metropolitano ajuda a estabelecer tal distinção funcional, evitando misturar o que não pode mais ser tratado de modo uniforme. Para além dele, há trechos de estrada com vocação quase que exclusivamente logística. Para aquém, os corredores intrametropolitanos, com funções logística e de transporte público acumuladas. Pois, no seu conjunto, são responsáveis por quase dois terços dos deslocamentos cotidianos realizados na região. E nesta perspectiva, de entendimento multifuncional e complementar dos trechos de estrada cortados e conectados pelo Arco, conseguir-se-ia acelerar ainda o cumprimento da função para a qual ele foi construído: a de rodovia essencialmente logística responsável pela conexão dos caminhos do “Rio et Orbi”.

*Vicente Loureiro. arquiteto e urbanista, doutorando em urbanismo na Universidade de Lisboa e autor do Livro Prosa Urbana