Pedalando para o futuro

outubro 6, 2020 /

 

*Vicente Loureiro

 

 

Tenho acompanhado com entusiasmo a bicicleata que toda segunda quarta-feira do mês toma as ruas centrais de Nova Iguaçu, clamando por investimentos em infraestrutura cicloviária e mais respeito aos ciclistas. Entre duas e três centenas deles pedalam suas bikes nesses eventos há mais de 3 anos, alinhados a uma tendência verificada em muitas outras cidades do Brasil e do exterior. Organizadas por grupos ativistas pró bicicleta, essas manifestações são chamadas de passeios ciclísticos, “byke nights”, pedaladas solidárias, entre outras denominações. Se formam, quase sempre, por iniciativa de ciclistas politicamente motivados em afirmar uso delas como alternativa eficaz e saudável a locomoção das pessoas.

Tais passeios tem servido também para celebrar “o dia mundial sem carro” e “o dia mundial em memória das vítimas de acidente de trânsito”. Procurando com isso, chamar atenção das autoridades para a importância de promover o transporte ativo nas cidades, em substituição ao uso excessivo do automóvel nos deslocamentos urbanos. Apesar de defenderem também o uso de bicicletas em viagens de lazer e até de turismo.

Em Curitiba, mais de 30 grupos de ciclistas Já realizam passeios de bike mensais e até semanais. Em Vancouver, no Canadá, outra referência neste tipo de mobilização, chegaram Inclusive a cunhar uma espécie de mantra: ” não se trata apenas de andar de bicicleta. Trata-se da viabilidade futura de nossa cidade”. No Estado do Rio de Janeiro, além das bike nights promovidas na capital, Nova Iguacú, Maricá, Cabo Frio, entre outras, realizam com regularidade suas pedaladas protesto ou de conscientização da população.

Considerado o meio de transporte mais utilizado do planeta, só na China são meio bilhão delas presentes no transporte de quase um terço da população daquele país, a bicicleta será também o transporte do futuro. Pois além de mais sustentável, é mais econômico e prático que os demais. Além de fazer bem à saúde.

Outros nove países do mundo desenvolvido, além da China, tem presença destacada das bikes na mobilidade urbana. Holanda, Dinamarca,Alemanha, Suécia, Noruega, Finlândia, Japão, Suíça e Bélgica tem entre 10% (caso da Alemanha) e 90% (caso da Holanda) de seus habitantes utilizando-se de bicicletas em seus deslocamentos diários. Algum deles, inclusive, mantendo programas de incentivo e até subsídio, para aquisição de bikes, condicionado ao abandono do uso do carro.

No Brasil elas chegaram no final do século XIX. Até a segunda guerra mundial eram importadas. Daí em diante passaram a ser fabricadas aqui . A partir dos anos 50, seu uso foi disseminado no país, principalmente em cidades mais industrializadas. Exemplos como Joinville(SC) ou Volta Redonda(RJ) espalharam-se Brasil afora. Aqui na região metropolitana do Rio, Paracambi talvez tenha sido o caso mais notável, no uso regular desse modo de transporte.

Somente neste século, governos municipais começaram a investir pra valer na implantação de ciclovias e ciclo faixas, com objetivo principal de combater a poluição. Mas com uso delas voltados ainda para um ciclismo de lazer. Só mais recentemente é que ações direcionas a incentivar o transporte ativo passaram a ocorrer com mais frequência e intensidade. Todo esse ativismo social e aumento de atenção do poder público para o tema nos fazem acreditar que as bikes estão aí  e vão nos permitir trocar o carro por elas. Muito mais breve do que pensávamos.

 

*Vicente Loureiro,arquiteto e urbanista,doutorando em urbanismo na Universidade de Lisboa e autor do Livro Prosa Urbana.