Para tudo, Santo Antônio

junho 12, 2021 /

*Dom Gílson Andrade

 

O 13 de junho é um marco nas celebrações populares do cristianismo. No contexto das nossas animadas festas juninas é dia de Santo Antônio. Um santo cuja biografia dispensa comentários. Não há quem não conheça algo do famoso santo português que recebeu o “sobrenome” de uma cidade italiana, Pádua, por ter ali realizado os grandes feitos que dele se narram.

Na Itália a figura de Santo Antônio é ímpar, prova disso é que ele é chamado de “o santo sem nome”. Quando lá se diz “Il Santo” (“O Santo”), imediatamente já se sabe a quem se está referindo. Sua popularidade, que já em vida era grande, após a sua morte difundiu-se enormemente. Menos de 1 ano depois de sua partida dessa terra já estava sendo declarado “santo” pela autoridade eclesiástica. As narrativas de seus milagres não terminaram com a sua morte e alcançam também os nossos dias.

No Brasil, a sua devoção, legado dos portugueses, foi sofrendo evoluções. De militar, na época das invasões no Brasil Colônia, com direito a patente e soldo, até chegar ao santo para cuidar de todas as coisas. Assim, já o Pe. Vieira, em um dos seus sermões, em 1656, comentava, não sem ironia: “Se vos adoece o filho, Santo Antônio; (…); se mandais a encomenda, Santo Antônio; se aguardais a sentença, Santo Antônio, se perdeis a menor miudeza da vossa casa, Santo Antônio e, talvez, se quereis os bens alheios, Santo Antônio.”

Voltando à sua trajetória histórica, impressiona ver como um homem de uma capacidade intelectual elevadíssima, de formação cultural superior para a sua época, tenha decidido abandonar tudo para seguir uma vocação de pobreza absoluta e despojamento, desprezando honrarias, riquezas e fama.

 

O que teria atraído o jovem Fernando para aquele estilo de vida? Certamente há a presença dos desígnios de Deus por trás de cada vocação. Mas aquele jovem percebeu que na sua avidez intelectual estava procurando as coisas essenciais e quando ouviu dizer que São Francisco falava de coisas simples e amava a Deus de forma apaixonada, seu coração experimentou uma forte atração por viver assim. Um belo exemplo para nós que vivemos este tempo que nos está pedindo coragem para uma profunda revisão de vida e redescobrir o valor do que é essencial. “A estatura espiritual de uma vida humana é medida pelo amor, que constitui ‘o critério para a decisão definitiva sobre o valor ou a inutilidade de uma vida humana’” (Papa Francisco, Fratelli Tutti, n. 92).

De nossa cidade de Nova Iguaçu ele é o padroeiro (Lei 5.995/1998), como também de toda a Diocese de Nova Iguaçu, nos seus 7 municípios.

Em tempos normais, à festa religiosa acompanha também uma sua expressão popular, no centro da cidade. Uma festa querida pelo povo da nossa cidade, de longa tradição, que tem a força de reunir a comunidade iguaçuana na variedade que lhe caracteriza.

As festas cristãs, sendo lugar de encontro, podem contribuir para a superação da atual tendência ao individualismo e à intolerância em vários níveis. Em um tempo marcado pela globalização e certa perda de identidade, as festas populares ajudam a valorizar nossas raízes, ligadas à fé e ao chão que pisamos.

Em tempos de pandemia, porém, se reforça o sentido principal da festa: o testemunho luminoso do Santo, sua intercessão, o valor da oração, do compromisso cristão; enfim, a força da fé. Realidades essas que fazem parte de uma válida resposta dos cristãos diante da atual crise que estamos enfrentando.

“Buscar a Deus e cuidar da vida” foi o tema da Trezena de Santo Antônio na Catedral. Que a exemplo do Santo Padroeiro na busca de Deus encontremos o serviço evangélico do cuidado da vida, hoje tão ameaçada.

*Dom Gilson é carioca, nascido no Méier e criado em Mendes no sul fluminense. Fez parte do clero de Petrópolis, estudou em Roma e foi bispo auxiliar de Salvador (BA). Nomeado pelo Papa Francisco em 27 de junho de 2018, tornou-se o 6º bispo da Diocese de Nova Iguaçu.