Os nossos mortos vivem

outubro 31, 2020 /

 

 

*Dom Gílson Andrade

 

 

Neste ano de 2020, a celebração dos Finados acontece no contexto de experiências dramáticas vividas por muitas pessoas. Dia após dia os números de vítimas do novo coronavirus fazem parte das notícias veiculadas. Quem de nós não teve alguma ou várias notícias de pessoas próximas, parentes, amigos, conhecidos de quem tivemos que nos despedir? Não me recordo ter vivido um ano onde a “irmã morte”, como a chamava o irmão universal, Francisco de Assis, tenha estado tão próxima.

A fragilidade da vida humana ficou patente neste tempo. A experiência da morte sempre nos coloca diante do decisivo da vida e de sua fugacidade. “Passa tão depressa” o tempo que nos corresponde viver aqui nesta terra.

Mas o pensamento da morte não traz só sentimentos de insegurança e melancolia. O cristão é frequentemente convidado a pensar no seu confronto pessoal com esta realidade da qual ninguém pode escapar. Longe de marcar a vida humana com um tom de tragédia, a morte deve ser colocada dentro do “pacote” que trazemos conosco quando vimos a luz, ao sair do ventre materno. Contar com ela torna menos trágica a vida e mais responsável também a nossa passagem por aqui.

Em um dos diálogos do Pequeno Príncipe com a raposa, ele diz: “É bom ter tido um amigo, mesmo se a gente vai morrer. Eu estou muito contente de ter tido a raposa por amiga…” A morte não diminui o valor daquilo que se vive, ao contrário, acrescenta. As coisas que vivemos podem ganhar o peso da eternidade. E o cristão é chamado a dar peso de eternidade à sua vida. Por aí, costuma-se dizer que o tempo vale ouro. Na verdade, se queremos ser ainda mais coerentes podemos dizer que o tempo para nós tem valor de eternidade.

Os nossos mortos vivem diante de Deus e não apenas na nossa lembrança ou nos nossos afetos. “Para aqueles que creem a vida não é tirada, mas transformada”, assim reza a liturgia da Igreja na missa pelos mortos. A esperança certa da vida eterna descortina um horizonte aberto, diante do muro que a morte pretende impor à curta ou longa existência humana.

Este mês de novembro nos convida a lembrar de forma orante dos nossos mortos. A fé católica ensina que “os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas não estão completamente purificados, embora tenham garantida a sua salvação eterna, passam, após sua morte, por uma purificação, a fim de obterem a santidade necessária para entrarem na alegria do Céu.” (Catecismo n. 1030). Por isso, somos convidados no dia de Finados a oferecer missas e orações em sufrágio dos nossos falecidos.

O Papa Francisco, diante da situação pandêmica que coloca limites aos nossos costumes, nos ofereceu, através da Penitenciaria Apostólica, a possibilidade de ganhar indulgência pelos mortos ao longo de todo o mês de novembro, adequando as práticas indulgenciadas e as condições para garantir a segurança dos fiéis. Assim, a indulgência plenária para os que visitarem um cemitério e rezarem pelos defuntos, ainda que apenas mentalmente, estabelecida por regra geral somente em dias que vão de 1 a 8 de novembro, poderá ser transferida a outros dias até ao fim do mesmo mês. Os que por motivos graves não possam sair de casa, poderão obter a indulgência plenária desde que se unam espiritualmente a todos os demais fiéis, e rezem de acordo com as normas já estabelecidas para a obtenção da graça da indulgência.

Lembrar dos nossos mortos e rezar por eles, valorizar a vida pessoal e a dos irmãos, tornar-nos sempre mais defensores do valor ímpar da vida humana, solidarizar-nos com os que estão vivendo momento de luto, são compromissos que o dia dos fiéis falecidos pode nos inspirar.

 

*Dom Gilson é carioca, nascido no Méier e criado em Mendes no sul fluminense. Fez parte do clero de Petrópolis, estudou em Roma e foi bispo auxiliar de Salvador (BA). Nomeado pelo Papa Francisco em 27 de junho de 2018, tornou-se o 6º bispo da Diocese de Nova Iguaçu.