Oa conselhos de Mococa

março 12, 2021 /

 

*Vicente Loureiro

 

A leitura de um anúncio publicado em 1918 pela Prefeitura Municipal de Mococa, município Paulista da região metropolitana de Ribeirão Preto, intitulado “Conselhos ao Povo”, que trazia recomendações para a população no sentido de evitar o contágio pela gripe espanhola, chamou minha atenção. Tanto por sua atualidade, apesar de editado há mais de um século, quanto pela inexplicável resistência, nos dias de hoje, de autoridades e parte da população em adotar medidas simples e de tão eficaz profilaxia.

Refiro-me a providências como evitar aglomerações, não fazer visitas, tomar cuidados higiênicos especiais com o nariz e a garganta, evitar toda a fadiga e excesso físico, entre outras determinadas à época pela Diretoria de Serviços Sanitários daquela prefeitura. Todas, a princípio, ao alcance de cada cidadão, independente de outras ações deflagradas pelo governo. Se as trouxéssemos para os dias de hoje, diante dos desafios de autoproteção provocados pela covid-19, diria que o uso de máscara diante de pessoas que não vivam sob o mesmo teto e a manutenção de distanciamento seguro, principalmente em ambientes de pouca ventilação, mereciam também serem estimuladas e, assim, contribuir para a redução dos níveis de contaminação do vírus, sobretudo agora, nessa segunda onda, quando o vírus e suas novas cepas parecem adquirir maior capacidade de contágio e letalidade.

O ambiente de exacerbada polarização, apimentado por atitudes negacionistas, transformaram medidas acessíveis a maioria dos cidadãos em um jogo a favor ou contra o governo. Quando, na verdade, o adversário principal a combater era o vírus. O pior é que todos poderiam colaborar não fossem tais cautelas intitulados, por vezes, de “frescura, coisa de maricas ou dos fracos”. Enquanto não se tinha ainda vacina, eram atitudes preventivas de custo relativamente baixo e capazes, como a 100 anos atrás, de diminuir o contágio e o flagelo de doença até então desconhecida.

Deveriam tais atos de caráter pessoal, de responsabilidade dos cidadãos devidamente conscientizados acerca dos riscos impostos pela transmissão do vírus, serem acompanhados por outros de natureza coletiva, implementados pelos governos nos três níveis de competências, concorrentes e complementares, no campo da Saúde Pública. Faltou orientação técnica e científica adequada e articulação política eficiente em relação as recomendações administrativas de cerceamento temporal a certas atividades, principalmente as praticadas em bares, restaurantes, festas, academias, templos religiosos, cinemas, teatros, entre outros espaços de uso público e focos de aglomeração. A ausência de um debate racional e altivo levou a adoção medidas que talvez não necessitassem ser tomadas nas dimensões que foram. É possível até, que tenhamos fechado demais e de modo errado o comércio e os serviços nas cidades.

Com o agravamento da crise sanitária, é muito provável que medidas mais duras, como o lockdown, toque de recolher e/ou escalonamento do horário de funcionamento comercial, entre outras, tenham que ser tomadas. O falso dilema entre preservação da vida e da economia, não faz mais sentido diante do assustador número de vidas perdidas e dos impactos causados nos negócios. A vacinação em massa da população passou a ser a meta a ser perseguida por todos. Pelos governos e pela população sem medo de virar jacaré ou receber algum castigo no juízo final, mas também sem deixar de levar em consideração os conselhos centenários de Mococa e de exigir dos governantes a repressão com firmeza às aglomerações desnecessárias e egoístas neste momento de transmissão tão aguçada.

*Vicente Loureiro, arquiteto e urbanista, doutorando em urbanismo na Universidade de Lisboa e autor do livro Prosa Urbana.