O jogo de Bolsonaro, da Globo e de Dória

janeiro 12, 2021 /

 

 

*Victor Loureiro

 

 

Parafraseando Rita Lee, o Brasil, ultimamente, só tem jogado. Aprendeu a jogar tão bem que se perdeu no jogo. Ora, jogar por jogar é fácil, mas aprender com o jogo é para poucos.

Bolsonaro joga para manter sua estratégia, ainda que isso provoque desespero, angústia e morte. Dória faz apologia à vacina para salvar vidas e a sua candidatura óbvia à Presidência da República, no ano que vem. A Globo joga, e muito bem, para manter sua hegemonia de audiência e suas isenções bancadas pela eterna viúva, que de viúva não tem nada, já que sempre foi casada com o povo: esse, sim, no final das contas, põe o cartão na maquininha.

Todos têm razão. A gente joga por algum motivo. Esses atores citados acima jogam por interesses próprios, mas sempre jurando de pés juntinhos que não têm interesse algum, além do de servir ao próximo. Nunca vi um país servir tanto ao seu próximo e ter números que desmentem de longe essa falácia.

Ou seja, jogo. Jogo por si mesmo. Jogo por jogar. Jogo, jogo, jogo. Nenhum aprendizado. Bolsonaro, Dória e a Globo são três atores sociais que costumam ser chamados de formadores de opinião, mas a opinião difundida é: joguem. Ou seja, quando você joga existe, implícita e explicitamente, o objetivo maior de qualquer jogo: ganhar. E, nesse jogo pelo jogo, está claro que alguém tem de perder. Adivinha?

Jogo de cartas marcadas. O baralho brasileiro tem marca em todas as cartas e só quem marca as cartas ganha. Óbvio, não é? Só o autor da mácula em um ás de copas, ou em uma dama de paus pode reconhecer e saber o que está do outro lado. Quem não marca não vence. Sinceramente, nem jogo isso chega a ser.

Parece que o Brasil tem de passar numa charutaria e comprar um baralho novo. Aí sim, o aprendizado estaria acima do jogo. Nossa, Victor, você é um sonhador. Nenhum jogo é limpo. Quem joga marca ou tenta marcar. Quem joga não pode ser inocente a ponto de não aproveitar a oportunidade. Novamente em pauta o jogo. Ele virou a essência do convívio social.

Mas e o aprendizado? Não faz nenhum sentido. Por quê? Porque jogar basta. E nessa lógica, na opinião de um sonhador quase infantil, não vai sobrar nem baralho, pois alguém vai comer as cartas e vomitar vitórias. Aprender? Para quê? Se a partida já está ganha, aprender vira piada, vira logo um meme com milhões de visualizações em minutos.

Para se construir uma sociedade mais justa, é preciso aprender com o jogo. Mas isso  não dá IBOPE, não traz reeleição, e não mantém o i do estúdio. Será que a gente está preparado para esse jogo maior, onde ganhar parece quase com perder, na lógica de quem esconde o trunfo de ouros? Estamos vivendo e aprendendo a jogar e não ao jogar.

Preciso interromper a reflexão. Minha mulher me chamou para jogar buraco e o baralho é novinho. Como diz o grande Tom Zé: – “Tô te explicando para te confundir.”

 

* Victor Loureiro é escritor, gestor público,  professor de Ciências e Biologia e mestrando em Educação em Ciência pela UFRRJ.