O futuro do trabalho e as cidades

abril 10, 2021 /

*Vicente Loureiro

 

As cidades costumam concentrar capital, talentos e oportunidades. É da sua essência ou razão de ser. Mesmo quando atravessam profundas crises econômicas, grandes tragédias sanitárias ou catástrofes ambientais, elas resistem e por vezes se reinventam. Ora adotando medidas mitigadoras, buscando aliviar ou tornar mais brandos danos semelhantes no futuro. Ora adaptando-se às circunstâncias adversas, porém recorrentes dos cataclismos. Se olharmos para Damasco por exemplo, uma das mais antigas urbes do mundo, com as primeiras ocupações datadas de pelo menos seis mil anos A.C., teremos prova dessa incrível capacidade de se refazer sobre si mesmo das cidades. Até quando destruídas, ou quase, por guerras como é o caso da tão bombardeada capital Síria.

 

Digo isto para introduzir com cuidado merecido o tema da coluna: os impactos das mudanças do mundo do trabalho, pós Covid, nas cidades e seus modos de tradicionalmente abrigarem atividades tão diversas. Porém dirigidas a atender suas necessidades de consumo e alavancar potencialidades e vocações. Um recente relatório elaborado pela empresa de consultoria Mac Kinsey, de fevereiro último, trata do futuro do trabalho pós pandemia destacando três grandes tendências de transformações laborais e possíveis desdobramentos delas na vida urbana como ela é. Sobretudo nas formas como as cidades se organizam para abrigá-las e desenvolvê-las.

Na verdade, segundo o estudo, as três tendências destacadas já estavam ocorrendo antes da Covid: o aumento do trabalho remoto, o crescimento do comércio eletrônico e dos níveis de automação das empresas. Todas provocando uma disrupção no mercado de trabalho. Com muitas pessoas sendo dispensadas, outras tantas tendo que se adaptar ao trabalho remoto, e, outras ainda, sendo substituídas por máquinas e robôs. Fábricas tendo as atividades cada vez mais automatizadas, escritórios sendo reduzidos ou até fechados e lojas do varejo perdendo função ou serventia, podem ser classificados como alguns dos impactos físicos de tais mudanças, aceleradas durante a pandemia.

Sabendo-se que desde sempre, as atividades comerciais e de prestação de serviços procuram as áreas centrais das cidades para se instalarem. Reconhecendo-se também que tal concentração provoca uma cadeia de atividades e serviços complementares, incluindo aí os transportes públicos, surge a primeira questão levantada pelo relatório e suas interpretações: como recuperar o papel dos centros urbanos, em muitos casos já decadentes, diante de tais ameaças? De onde eles tirararão forças para tornarem-se resilientes e conseguirem reinventar funções ou atrair novas, capaz de lhes assegurar sustentabilidade econômica, vitalidade urbanística e, sobretudo, reinaugurar papel relevante e adequado aos novos tempos já em curso?


Como as mudanças do mundo do trabalho medidas pela Mac Kinsey já indicam transformações significativas, principalmente nas economias desenvolvidas. Uma outra questão se coloca para as cidades: terá chegado a era da “polinucleação” (a descentralização com distribuição mais equânime de serviços e oportunidades pelo território), provocando ainda mais esvaziamento das áreas centrais principais? Nossas cidades, por enquanto, parecem poder aprender com os impactos sofridos pelas metrópoles dos países ricos. O tempo de tais reconfigurações chegarem, até aqui, de modo avassalador, parece jogar a favor de se poder adotar, preventivamente, políticas mitigadoras ou de adaptação capazes de aumentar a resiliência dos grandes centros. Mas é necessário ficarmos atentos aos desdobramentos das tendências em curso, para que, no futuro próximo, não sejamos obrigados a confirmar aquela máxima do ditado popular: “nada é tão ruim que não possa piorar”.

*Vicente Loureiro, arquiteto e urbanista, doutorando em urbanismo na Universidade de Lisboa e autor do Livro Prosa Urbana