O ano que passamos em casa

dezembro 16, 2020 /

*Vicente Loureiro

 

Em 75% dos dias de 2020 fomos forçados a ficar em casa. O isolamento social imposto pela covid-19 assim determinou. Tivemos que nos adaptar a novos hábitos e necessidades. Muitos de nós passamos a trabalhar ou estudar em casa; as atividades de lazer ficaram restritas ao ambiente doméstico; até a prática dos exercícios físicos moldaram-se a nova realidade. Estivemos mais perto da família e de nós mesmos. Ganhamos tempo para refletir e sonhar, mas também sofremos angústias e tensões provocadas por confinamento tão prolongado e desgastante. Acabamos por redescobrir o papel e significado da moradia em nossas vidas. Avaliando a relação com ela, tanto nos seus aspectos tangíveis quanto intangíveis.

Tais mudanças de rotinas, causadas por mais tempo passado em casa, obrigaram adaptações de alguns espaços domésticos, através de soluções flexíveis dos ambientes, móveis e objetos. Um esforço expressivo de ressignificação do morar. Graças também ao aumento de consciência quanto aos cuidados com a higiene, saúde e bem-estar da casa, reforçando algumas tendências já praticadas como a biofilia (reconciliação dos ambientes construídos com a natureza) e a da aplicação de tecnologias amigáveis, voltadas maior automação de seus equipamentos e utensílios.

Alguns especialistas em captar tendências, asseguram para 2021 um ano de intensificação das reformas e adequações das habitações. Deflagradas ainda durante a pandemia, inicialmente apenas para corrigir defeitos, mas em seguida para ajustá-las as exigências das novas funções a elas incorporadas, tais como as ações de instalação de home office, de integração da sala com a cozinha, de levar a lavanderia para mais próximo dos quartos e de transforma o hall de entrada em ambiente de higienização. E ainda, iniciativas de natureza ambientais e para a saúde, tais como maior presença do verde nos ambientes, o uso de painéis fotovoltaicos para geração de energia, o reuso da água servida e o aproveitamento da água proveniente de chuva, a implantação de sistema de purificação da água, a aplicação de painéis para purificação do ar (através do uso de tinta fotocatalíticas) etc.

Tudo isso para que as moradias continuem a ser o principal e mais usado cenário da vida das pessoas no pós pandemia. Incorporando espaços e instalações para o autocuidado e segurança sanitária, pois elas viraram para além de morada, local de trabalho, lazer, cuidados pessoais e de relaxamento. Será preciso abrigar, com conforto e funcionalidade, todas essas novas funções, com baixo impacto ambiental, gerando pouco resíduos, utilizando materiais sustentáveis e fontes de energias renováveis: um desafio estimulante para arquitetura e o design.

É preciso considerar que vivemos uma revolução tecnológica a transformar o modo de vida e o cotidiano das pessoas. A pandemia fez acelerar ou potencializar alguns de seus impactos. Pois além de termos levado o trabalho e o estudo para dentro de casa, também compartilhamos com familiares, o uso mais intenso da internet em jogos e “streamings” variados, demandando cada vez mais tecnologia para fazer mais coisas, ao mesmo tempo e mais rápido. E ainda o uso de eletrodomésticos conectados e acionados pela presença, pela voz e até a distância. A casa do futuro estará ainda mais palpável com a internet das coisas e a inteligência artificial.

Toda esta ressignificação do espaço de morar irá também responder a um crescente movimento, sobretudo entre os mais jovens, de desapego, lançando mão da reciclagem de móveis e objetos, adquirindo-os de segunda mão ou mesmo locando-os. Libertando-se daquilo que não tem mais serventia ou denuncia acúmulo desnecessário. Motivados por um comportamento de otimização dos recursos financeiros através da simplificação de hábitos e redução dos níveis de consumo. Um estilo de vida mais simples com menor impacto ambiental e abrigada em espaços confortáveis, saudáveis e conectados.

 

*Vicente Loureiro, arquiteto e urbanista, doutorando em urbanismo na Universidade de Lisboa e autor do Livro Prosa Urbana