Mudar para melhorar ou melhorar para mudar ?

janeiro 28, 2021 /

 

*Vicente Loureiro

 

A frase não é minha. É do professor de Engenharia de Transportes Rômulo Orrico e foi cunhada quando da elaboração do Plano Estratégico para o Desenvolvimento Urbano Integrado(PEDUI) da região metropolitana do Rio de Janeiro. Inspirada talvez na sacada publicitária indagando se tal biscoito vendia mais porque era fresquinho, ou era fresquinho porque vendia mais, ela é mais do que um mero jogo inteligente de palavras. Nos coloca diante da questão central sobre o modelo de cidade ou no caso Metrópole que queremos para o futuro.

Nos desafios postos diante de nós pelas demandas reprimidas ou mal atendidas por serviços urbanos essenciais. Sejam eles os de transportes, saneamento ou mesmo oferta de habitação popular. O que temos assistido é o predomínio de políticas e investimentos públicos extremamente setorializadas. Assim, se temos um problema de mobilidade para resolver, a solução a perseguir, via de regra, passa por aumentar a oferta. Custe o que custar. Sequer perguntamos se tal demanda é de fato por transporte público. Ou está deslocada para ele por falta de um outro serviço essencial próximo do demandante. Seja ele de saúde, educação ou até mesmo de obtenção de trabalho ou renda.

Assim a preferência tem sido sempre a de melhorar este ou aquele serviço, na expectativa de mudar a realidade mal parada da sua oferta. E tome investimento em expansões sem-fim, via endividamentos e subsídios crescentes. A conta desse modo não só não fecha, como periga não fechar nunca. Daí fazer sentido escolher mudar o modo de produzir e gerir a cidade ou metrópole, para melhorar a qualidade e o acesso aos serviços essenciais ao seu metabolismo.

Quando constatamos, por exemplo, que perto da metade dos deslocamentos feitos diariamente na região metropolitana, são por outros motivos, que não a ida e volta ao trabalho. E entre eles os destinados a obtenção dos serviços de saúde e educação são os mais incidentes, fica claro que sua redistribuição, de modo mais equanime pelo território, além de mais barato, alivia a pressão da demanda sobre os transportes públicos e de quebra, ainda reduz a poluição, o trânsito e o tempo jogado fora em viagens desnecessárias.

A notícia de pesquisa realizada pelo aplicativo Movit em 99 metrópoles de 25 países, e divulgada esta semana, chama atenção para o fato já conhecido de que a região metropolitana do Rio é aquela onde se gasta mais tempo em transporte público em todo país. Só perdendo posto nada honroso, para Jacarta e Istambul no resto do mundo. Talvez ela ajude a entender que o dilema do título deste artigo mereça ser levado mais a sério. Diria até que deveríamos prestar mais atenção nos trajetos do que nos dados de origem destino das viagens por aqui praticadas.

Tal levantamento faz perceber que é balela dizer que o morador metropolitano não gosta de baldeações. Pelo menos metade deles faz no mínimo duas para cumprir uma viagem e outros 15% chegam a trocar de condução três ou mais vezes. Além disso, costumam em média esperar 17 minutos pelo transporte, nos pontos ou estações. Depois de 1/3 deles ter caminhado mais de um quilômetro para chegar até elas. Fica patente: além de longa, consumindo 67 minutos em média, a experiência de cumprir o trajeto é desgastante e principalmente custa caro. Daí resta perguntar: será que a solução para tal desafio está exclusivamente no setor de transportes? Ou precisaremos mudar o modo de ver os problemas para melhorar o jeito de propor soluções?

 

*Vicente Loureiro. arquiteto e urbanista, doutorando em urbanismo na Universidade de Lisboa e autor do Livro Prosa Urbana