Missionários para a vida do mundo

outubro 18, 2020 /

*Dom Gílson Andrade

* Dom Gílson Andrade

Santa Teresinha do Menino Jesus, aos 15 anos, seguindo uma intuição interior, pediu ao Papa Leão XIII a graça de poder entrar em um mosteiro carmelita no norte da França, na cidade de Lisieux. Ela mesma conta que entrou com um propósito firme: salvar almas e rezar pelos padres. Ao longo dos 9 anos, vivendo uma vida escondida aos olhos do mundo, atrás das grades da sua clausura, permitiu que Deus, através da oração e da vida em comunidade, dilatasse o seu coração para horizontes que ela jamais poderia ter suspeitado alcançar.

Morreu aos 24 anos! Uma vida curta, alguém poderá dizer. Sim, mas intensa, com a intensidade de quem vive no coração da Igreja o amor. Sentia em si o desejo de todas as vocações, pois assim poderia realizar o seu sonho: tornar Cristo amada por todas as pessoas, no mundo inteiro.

Esta grande mulher tornou-se uma referência missionária para a vida da Igreja, sendo proclamada pelo Papa Pio XII, em 1927, padroeira das missões junto com São Francisco Xavier. Desde então, os Papas não têm deixado de recordar o vínculo que há entre oração, caridade e ação missionária.

A sábia escolha de Santa Teresinha, dentro da perspectiva missionária, parte da compreensão que Igreja tem que “sem momentos prolongados de adoração, de encontro orante com a Palavra, de diálogo sincero com o Senhor, as tarefas facilmente se esvaziam de significado, quebrantamo-nos com o cansaço e as dificuldades, e o ardor apaga-se” (Francisco, Evangelii Gaudium, 262).

A missão respira a vida de Deus e a comunica através do pulmão da oração e também através das mãos da açãos missionária concreta.

Falar de missão é falar da vida da Igreja e do mundo. A missão confiada à Igreja por Cristo, de ir ao mundo inteiro e anunciar a sua Boa Nova, não tem nada a ver com uma espécie de proselitismo, simplesmente para angariar números para um fortalecimento social e político da Igreja. Trata-se de permitir, através da nossa ação missionária, que a vida em abundância que Jesus veio trazer, chegue a todos.

Este ano o tema da vida inspira o mês missionário com o tema “a vida é missão”. O seu lema coloca em nossos lábios, precisamente no contexto que estamos vivendo, a resposta de Isaías ao ouvir o chamado de Deus: “Eis-me aqui, envia-me”(Is 6, 8). Deus, que não precisa de ninguém, quis precisar de nossa disponibilidade para sair ao encontro dos irmãos, pois, de outro modo, Cristo continua sendo desconhecido e sua vida não restaura a vida das pessoas e, consequentemente, do mundo.

O tema nos recorda que o sentido da vida está na missão. O Papa Francisco com frequência tem dito que “a pessoa é missão”. A vida do cristão está orientada para comunicar esta esperança ao mundo: “Jesus quer evangelizadores que anunciem a Boa Nova, não só com palavras, mas sobretudo com uma vida transfigurada pela presença de Deus” (Idem, 259). Nossa vida mudada, convertida pelo amor e para o amor, pode ser instrumento de Deus para tocar o coração das pessoas.

Além disso, afirmar que “a vida é missão” significar reafirmar o nosso compromisso diário, pessoal e comunitário, de anunciar o Evangelho da vida e promover ao nosso redor a vida das pessoas e do mundo, especialmente defendendo e amparando a vida ameaçada desde a concepção, passando por todo o seu desenvolvimento até o momento da morte natural.

Celebrando o Dia Mundial das Missões neste 3º domingo de outubro, empenhemo-nos, mesmo com os limites deste tempo, por viver este mês missionário indo ao encontro dos irmãos e irmãs, especialmente dos mais carentes de tudo, sobretudo de sentido para a vida.

*Dom Gilson é carioca, nascido no Méier e criado em Mendes no sul fluminense. Fez parte do clero de Petrópolis, estudou em Roma e foi bispo auxiliar de Salvador (BA). Nomeado pelo Papa Francisco em 27 de junho de 2018, tornou-se o 6º bispo da Diocese de Nova Iguaçu.