Meu Castelo, Minha Vida

dezembro 29, 2020 /

 

*Vicente Loureiro

 

A anunciada venda do maior apartamento do Rio de Janeiro e, talvez, um dos maiores do mundo, nos remete a algumas reflexões. A primeira, é o esbanjamento presente nos 3,9 mil metros quadrados destinados a abrigar apenas uma única família. É possível que alguém pague os 65 milhões de reais pedidos pelos atuais proprietários para o palácio em forma de apartamento. Isso não põe ponto final a tamanha extravagância. Ao contrário, garante-lhe mais algum tempo de vida, ainda que meio absurdo para os dias atuais.

Talvez a escritura de compra e venda não consiga transferir a exuberância vivida pelo palacete vertical nos seus áureos e afortunados tempos de glamour. As construções da cidade costumam retratar gostos e modos de vida das distintas épocas. Há quase um século, exageros como este eram possíveis de serem não só erguidos, mas, principalmente, sustentados. Hoje, somente sheiks árabes, endinheiradas estrelas do showbusiness e do esporte ou, então, novos ricos e milionários exibidos seriam capazes de conviver com tamanho desperdício de metros quadrados. Todos muito sem noção e convictos de que o dinheiro tudo compra, justifica e redime.

Porém, os preços estratosféricos pedidos por alguns imóveis de luxo no Rio, não se deve apenas a este apartamento digno de figurar no Guinness. Vários outros estão anunciados com preços superiores, por exemplo, a castelos europeus também postos à venda e divulgados em diversos sites na internet. Localizados na França, Bélgica e Áustria têm preços médios fixados em 7,2 mil reais o metro quadrado de área construída, incluídos alguns hectares de jardins ao redor. Por aqui, mansões entre a Zona Sul e a Barra da Tijuca, podem ser adquiridas pelo dobro do preço do metro quadrado dessas antigas e aristocráticas moradias de príncipes e nobres da Europa. Quase inacreditável.

O maior apartamento do Brasil está avaliado por mais de 16 mil reais o metro quadrado, e tenta ser vendido há muito tempo. Pode ter a haver com tal demora, o preço tão salgado, mas provavelmente também dificulta sua comercialização o custo da manutenção de um lugar pra morar tão avantajado. Salta aos olhos o fato de poder existir mais mistérios do que lógica nos preços praticados na compra e venda de imóveis no Rio. Não há crise econômica, sanitária ou mesmo política capaz de pôr freio de arrumação nessa aparente inequação, entre a cidade que se entrega e o que se cobra para poder viver em alguns territórios bem servidos de infraestrutura e comodidades urbanas. O quanto pior, melhor, parece fazer sentido, sobretudo para o valor dos imóveis nos melhores bairros cidade. Quanto mais ela degrada, mas eles sobem. Pode-se até explicar tal fenômeno. Difícil será mitigar suas sequelas.

Fica pergunta: até quando será possível sustentar este desequilíbrio? O céu não é o limite para práticas que apostem no desperdício ou consagrem injustiças. Sejam elas de área construída das moradias ou de cidade bem resolvida posta à disposição apenas de alguns poucos. Reduzir as desigualdades sócio territoriais do Rio, mais do que calibrar melhor os preços dos imóveis, poderá fazer crescer a Felicidade Interna Bruta de todos os cariocas, independente do CEP de suas residências.

Feliz 2021.

 

*Vicente Loureiro. arquiteto e urbanista, doutorando em urbanismo na Universidade de Lisboa e autor do Livro Prosa Urbana.