Maradona e a arte do deslocamento

novembro 27, 2020 /

 

* Víctor Loureiro
Diego elegeu Rivelino como o maior jogador do mundo quando o mais óbvio seria escolher Pelé. Em Napoli foi considerado Deus, mas caiu em tentação e,
humanamente, entregou-se às drogas. Paro e me pergunto como, dominando o ar, o peso dos corpos esféricos, a música dos movimentos, ele permaneceu grudado às fraquezas
humanas. Não tenho a resposta, mas sei que ele pareceu recitar, com o corpo, o poema em linha reta de Fernando Pessoa: Nunca conheci quem tivesse levado porrada. / Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. / E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, / Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita/Indesculpavelmente sujo, (…) e mais adiante afirma: Arre, Estou farto de semideuses! /Onde é que há gente no mundo ? Feito de matéria fluida,ele fez abola flutuar.Maradona também venceu os mistérios da velocidade, e fez com a pelota o que, nem em câmera lenta, outros atletas conseguiram. Antidogmático, pois os dogmas, parecem desprezar as contradições humanas.
Diego foi um tango. Um movimento. Um samba sincopado feito por intervalos musicais invisíveis onde moram os deuses. Uma intercessão, um ponto onde duas linhas se encontram. Era pra ele usar a cabeça numa posição vertical ao corpo, mas escondeu a mão de Deus – que todo mundo viu – e fez o primeiro gol contra Inglaterra, na Copa do Mundo de 1986. Era pra ziguezaguear no segundo, no entanto ele fez uma linha reta até o gol, esse lugar sagrado que amedronta os medíocres e atrai os gênios, nesse mesmo jogo contra a Inglaterra, que vencera a guerra das Malvinas quatro anos antes. Mas diante do camisa diez pouco importa a guerra, porque essa não passou de uma briga, por um pente, entre dois carecas.
Diego é um dado supra científico, além das hipóteses, matéria torta escrita em linhas retas. Maradona é um deslocamento moral, um traidor da mesmice, um calo no sapato dos politicamente corretos, uma volta e meia na história, porque os adorados vivem deslocados e seus deslocamentos vão além dos clubismos.Ele será lembrado com a mesma paixão pelos torcedores do Boca, do Argentino Juniors, do River. Seu reinado transcende a escolha de lados, de escudos, pois quem luta por agremiação acaba esquecido, como uma flâmula desbotada pelo tempo.
Quando La Bombonera apagou as luzes e deixou apenas seu camarote aceso, pude ver e ouvir um anjo torto a dizer: “Vá, Dieguito, ser gauche na vida, deslocar-se no tempo e no espaço, até driblar a si mesmo, vá desconsertar a marcação das fronteiras, enganar o golpe de vista dos goleiros. Vá, Dieguito, e, lá de cima, veja a Terra azul e domine essa pelota, sua verdadeira e única paixão.
* Victor Loureiro é Escritor, Gestor Público Professor de Ciências e Biologia.