Logística Urbana

março 25, 2021 /

 

*Vicente Loureiro

 

Vem ganhando cada vez mais importância na gestão das cidades o transporte de cargas. Inicialmente, por conta dos veículos, utilizados para tal fim, ocuparem muito espaço no sistema viário, aumentando os congestionamentos e os níveis de poluição ambiental. E mais recentemente, devido ao expressivo crescimento das entregas à domicílio promovido pelo comércio eletrônico graças a pandemia do Covid-19.
O que já merecia atenção, parece exigir medidas mais concretas dos governos locais e das empresas do setor, sejam elas destinadas ao planejamento e regulamentação das atividades demandantes de espaços públicos ou voltadas a melhoria e ampliação da infraestrutura física disponível. Ou, até mesmo, aquelas aplicadas ao aperfeiçoamento das tecnologias de sistemas de transporte e modernização dos veículos e equipamentos utilizados no manejo de cargas dentro das áreas urbanas.
Compõem esse universo de ações públicas e privadas, dirigidas a fazer funcionar melhor o abastecimento das cidades, as redes de circulação viária segregadas para uso exclusivo de veículos de transporte de cargas e as áreas disponibilizadas para transbordo, armazenamento e distribuição delas, incluindo os centros de distribuição intraurbanos e os pontos de entrega de encomendas. Além das inovações tecnológicas das startups especializadas, as logtechs, e a adoção de veículos de baixa emissão e dos modais alternativos como bicicletas, triciclos, etc. Todos articulados por regulamentos de trânsito com restrições de horários e de locais para as operações logísticas ou, até mesmo, da circulação de veículos mediante cobrança de pedágio urbano de carga.

Mas há o que comemorar. Assistimos ao longo dos últimos anos, em especial 2020, uma expansão acentuada das startups de entregas, voltadas à gestão de estoques, ao uso otimizado dos veículos de transporte e, até mesmo, a logística reversa. Além dos lockers: armários automatizados já presentes em algumas cidades brasileiras, aqueles em que os usuários retiram a mercadoria encomendada através do QR Code recebido no seu celular. E que estão sendo instalados em estações de transporte público, shopping centers, etc.

Tudo para dar conta de um crescimento do e-commerce de mais de 80%, somente durante 2020 e comparado ao ano anterior, e já ostentando a marca de ser responsável pela comercialização de um em cada dez produtos vendidos no país. Isso sem contar as vendas de veículos, peças, materiais de construção, viagens e a dos aplicativos de transporte e alimentação. E em viés de alta, segundo estimativas recentes, um em cada cinco internautas fez, pelo menos, uma compra eletrônica no último trimestre do ano passado.
A gestão, armazenamento e distribuição dos recursos consumidos nas cidades precisam ser tratadas por política apropriada. Pois a disrupção provocada pelo comércio eletrônico tem também impactos negativos na medida em que tende a aumentar o tráfego de veículos, sobretudo os da última milha, isto é, os percursos entre os centros de distribuição e o destino final da entrega, comprometendo os ganhos de tempo, custo e credibilidade. Seu crescimento futuro anuncia-se tão irreversível quanto, no caso das cidades brasileiras, imprevisível.

*Vicente Loureiro, arquiteto e urbanista, doutorando em urbanismo na Universidade de Lisboa e autor do Livro Prosa Urbana