Incertezas da razão

fevereiro 18, 2021 /

 

*Vicente Loureiro

Tive o privilégio de acompanhar na última semana duas saudáveis discussões em grupos distintos do WhatsApp. Um, de defensores do patrimônio natural e construído e, outro, formado majoritariamente por economistas preocupados com desenvolvimento e sustentabilidade do Rio. A fazer ponte entre eles, a ideia de implantar parques em áreas florestadas. Um, localizado em Miguel Pereira, no centro sul do estado, e, outro, em Deodoro, na divisa do Rio com municípios da Baixada Fluminense.

O da cidade do interior parece mais avançado. Numa área de propriedade do município, onde já existe o Parque Municipal Rocha Negra, a prefeitura promoveu concessão a iniciativa privada visando a instalação do Parque dos Dinossauros. Um complexo, segundo o anunciado, de ciência, lazer e entretenimento com investimentos previstos de 8 milhões de reais, responsáveis, entre outros mimos, pela importação da China de 32 réplicas de animais pré-históricos com até 30 m de altura e dotados de movimentos e emissão de sons. Uma clara inspiração no Jurassic Park de Steven Spielberg. Um protocolo de cooperação assinado com o Museu Nacional assegura a dimensão científica do empreendimento. A preservação de mata nativa faz jus a sua sustentabilidade. Os “dinos” importados permitem acreditar no sucesso do objetivo do projeto: levar 200 mil turistas por ano para a cidade, que se gaba de possuir o 3° melhor clima do mundo.

Apesar de ter gasto todo primeiro mandato do atual prefeito na maturação de empreendimento tão ousado para município de pouco mais de 25 mil habitantes e minguado orçamento, a iniciativa de Miguel Pereira não está livre de questionamentos. Um ou outro preservacionista do grupo põe dúvidas na orientação principal do projeto, afirmando haver experiências mais pitorescas e exitosas na região e torcendo o nariz para uma certa pegada “americanizada” da proposta. Porém, outros componentes desse mesmo grupo saíram em defesa dos dinossauros, acreditando na eficácia e diversidade dos parques temáticos. E, pondo mais lenha no debate, lembraram a exemplar atuação do visionário Augusto Ferreira Ramos, idealizador do bondinho do Pão de Açúcar, imaginando um teleférico capaz de, ao mesmo tempo, alavancar o turismo e reverenciar o monumento natural.

Floresta do Camboatá

No outro grupo, a discussão se deu em torno da iniciativa da Prefeitura do Rio em solicitar ao INEA (Instituto Estadual do Ambiente) o arquivamento do pedido de licença prévia para construção de um autódromo na Floresta do Camboatá. Anunciando, inclusive, sua intenção de transformá-la em uma unidade de conservação graças aos serviços ambientais por ela prestados à região e adjacências. O foco do debate entre os economistas e simpatizantes era que tipo de parque seria criado? Se ele poderia ser de fato um parque? E se caberia concedê-lo à iniciativa privada ? E, em caso afirmativo, qual modelo a ser adotado ? Numa nítida preocupação com a sustentabilidade do empreendimento, considerando a situação explosiva do déficit público municipal e a criação de mais despesas correntes para custeio desse novo Parque.

E, mais ainda, o empreendimento se paga ou não? Qual seria seu impacto social? Mesmo quase todos no grupo reconhecendo a importância dos espaços de lazer e Integração social para o desenvolvimento mais equilibrado e harmônico daquela parte da cidade, o temor de uma área de 1,7 km2 ser invadida e favelizada levava a especulações do tipo: não seria melhor o Exército continuar responsável pela sua gestão? Ou então promover a fusão operacional da Floresta do Camboatá com o contíguo Parque Radical de Deodoro, infelizmente sem uso desde as Olimpíadas ? Talvez aí esteja a solução para viabilizar uma concessão ou PPP para funcionamento de complexo de lazer com uma floresta protegida ao lado.

 

Parque radical de Deodoro

Demanda por lazer, entretenimento, contemplação e até pesquisas científicas não vão faltar. Num raio de 20 km, a partir do local, se atinge quase toda a Zona Oeste do Rio, boa parte da Baixada Fluminense, além dos subúrbios da Central e Leopoldina. Certamente, polêmicas sobre os prós e contras deste ou daquele modelo de gestão para patrimônio tão valioso quanto bem localizado serão levantadas. Importante considerar que em tempos tão polarizados, haverá tantas certezas quanto razões. O desafio será saber preservar e usar adequadamente o bem, sem necessariamente onerar os cofres públicos. Fugindo dos preconceitos ideológicos e amarras institucionais, o parque e a unidade de conservação, podem virar, juntos, uma grande atração metropolitana.

 

*Vicente Loureiro,  arquiteto e urbanista, doutorando em urbanismo na Universidade de Lisboa e autor do livro Prosa Urbana