Idade adulta

março 4, 2021 /

* Vicente Loureiro

 

Ela não tem os três ou quatro mil anos de vida contínua de Jericó ou Damasco. Tão pouco, menos de um século como Brasília ou Chandigarh. Fez agora, dia primeiro de março, seu 456° aniversário. Quase meio milênio. Já não é tão jovem, começa a ganhar idade adulta. Quem sabe estreando uma fase mais dona de si e dos seus destinos? Não recebeu os festejos merecidos. A pandemia não permitiu. A data só não passou em branco graças aos esforços de admiradores e fãs em promover celebrações, de modo quase simbólico, para data tão importante para ela.

Mensagens de felicitações em forma de anúncios contam. Ela queria mais. Festeira do jeito que é, adora celebrações efusivas e animadas. Como esses tempos de Covid não deixaram e ela se encontra um pouco maltratada. É bem provável que preferisse mimos e pequenos presentes concretos ao invés das declarações de amor, quase protocolares, plantadas nas páginas dos jornais e nas redes sociais. Esperava muito desse seu aniversário. E o que não falta, nesse momento, é lugar para pendurar um “balangandã” capaz de dar aquela força na sua tão combalida autoestima.

Mas essa vaidade é importante e ajuda. Ter conquistado reconhecimento internacional por sua incontestável beleza, fruto de uma capacidade ímpar de manejar seus artefatos com os atributos herdados da mãe natureza, a distinguiu a ponto de ser por muitos considerada caso único no mundo. Por conta disso, também foi consagrada como Patrimônio da Humanidade pela Unesco, tamanha sua capacidade em conciliar ativos, por vezes antagônicos entre si, e, ao mesmo tempo, lidar com passivos resultantes do modo como se deu todo o seu desenvolvimento, marcado por muitas insuficiências e desigualdades no usufruto de seus bens e comodidades.

Mas entrar na idade adulta, também para cidades, não é tarefa fácil. Faz-se necessário conhecer suas reais potencialidades e saber enfrentar as limitações e possíveis recalques. Contrapor virtudes e mazelas passa a ser uma exigência desse novo tempo. Parar de procurar culpados para as impossibilidades do presente é tão importante quanto saber onde e como plantar inovações e melhorias que anunciem o futuro. Tal período de transição pode ser venturoso mas exige a força do querer e capacidade de aglutinar saberes, desejos e recursos disponíveis e capturáveis.

Conhecer seu corpo físico e suas emoções torna-se essencial. Não só nas dimensões consagradas, mas sim naquelas que sua envergadura é capaz de abranger. Uma cidade alargada que virou uma grande metrópole e não aprendeu a lidar com tamanha complexidade de funções e demandas. E que precisa, ainda, afugentar fantasmas do passado como se ela pudesse voltar a ser o que já foi um dia. Mesmo tendo hoje escancaradas suas novas e agigantadas dimensões com inéditas e surpreendentes perspectivas. No fundo, ela sabe que seu futuro está naquilo que ela se transformou, para o bem e para o mal, e é com a energia e a força desse imenso corpanzil, não mais de cidade, mas sim de uma Metrópole, que ela vai fazer e ganhar a vida. É dessa megacidade, quase adulta, que brotarão soluções e novidades que permitirão ao Rio continuar sendo um dos mais bonitos e dos melhores lugares do mundo para se viver. Feliz Aniversário.

*Vicente Loureiro, arquiteto e urbanista, doutorando em urbanismo na Universidade de Lisboa e autor do livro Prosa Urbana.