Futuro fora ou dentro da caixa?

fevereiro 25, 2021 /

 

*Vicente Loureiro

 

 

Não se trata de uma pegadinha, sim de uma dúvida. Pensar o futuro da construção civil fora da “caixinha” pode significar imaginá-lo produzido dentro delas, ou melhor de containers? Como revela a tendência mundial, relativamente recente e de certo modo sedutora, de reaproveitamento deles para abrigo das mais variadas atividades humanas. Condenados que são a uma inutilidade forçada depois de 10 anos de uso, estas robustas de estruturas de aço cortén, criadas em meados do século passado, para o transporte marítimo de mercadorias diversas têm sido transformadas em moradias, lojas, escritórios, centros comerciais, condomínios residenciais, hotéis, restaurantes e equipamentos sociais, entre outras edificações. Muitas delas com inegável esmero estético e excelente qualidade construtiva.

O selo de sustentabilidade chancela a iniciativa. Pois além de permitir as tais caixa de metal cumprirem sua vida útil de até 10 vezes mais que o prazo de validade dado ao seu uso original, ajudam também a reduzir o consumo de mais recursos naturais não renováveis, como cimento, areia, ferro e etc., demandados pelas novas construções por eles substituídas. Além de, na montagem e adequação às novas funções, não produzirem tantos resíduos e levarem bem menos tempo do que os consumidos nos sistemas construtivos convencionais.

Adjetivos não faltam para apregoar as vantagens da conversão dos containers. Praticidade, versatilidade, durabilidade, resistência e, principalmente, a possibilidade de sua remoção para outro local. Portanto, uma construção ou montagem simples, economicamente viável e rápida tem convencido cada vez mais gente a viver ou fazer a vida dentro da “caixinha”. Porém resultado de um ato de ousadia com pretensão de ressignificar, não são o objeto, mas o ambiente de entorno a sua chegada. Não é exagero dizer que a linguagem estética de tais adaptações guarda uma agradável tensão, entre sua robustez de origem e a polidez adquirida com a nova missão.

Nem tudo são flores nas “caixinhas” do morar do futuro. Para seu usufruto confortável e seguro, requerem tratamento térmico e acústico adequados e  limpeza e descontaminação devidamente certificadas. Sua reutilização esbarra, muitas vezes, em “senões” da legislação urbanística e construtiva de alguns municípios. Ou até mesmo em proibições absurdas, fruto de puro preconceito, como as presentes em convenções de condomínio. E, até mesmo, restrições a obtenção de financiamento bancário acontecem por falta de normatização técnica consagrada. No entanto, tais obstáculos não são suficientes para conter o brotar de containers revitalizados e customizados nas metrópoles e cidades do interior. Nem mesmo a inegável limitação para sua utilização em larga escala é capaz de por em dúvida o seu verdadeiro impacto no futuro da construção civil.

 

O recente aumento da demanda por novos containers, sem precedentes segundo o noticiário, fruto da explosão do varejo em todo mundo, anuncia um crescimento no estoque de 18 milhões deles dispostos hoje em navios e portos. Considerando que 5% são descartados a cada ano, pode-se imaginar uma importante oferta anual de unidades recicladas, mas insuficientes para fazer frente às necessidades de novas construções no planeta. Mas se esse esforço de menor agressão ao meio ambiente gerar a produção para além dos containers marítimos, daqueles destinados exclusivamente a construção civil, aí sim seu futuro estará sendo pensado fora da “caixinha”. Mas ficará abrigado dentro dela. Paradoxal e sustentavelmente.

*Vicente Loureiro, arquiteto e urbanista, doutorando em urbanismo na Universidade de Lisboa e autor do livro Prosa Urbana