Dia da consciência fraterna

novembro 20, 2020 /

 

*Dom Gílson Andrade

 

Quem dera que o dia 20 de novembro fosse mais um dia entre os dias do ano. Que não
necessitássemos marcar uma data no calendário para lembrar o que deveria
normalmente fazer parte do dia a dia das nossas relações. Um sonho de igualdade entre
as raças que exige sempre estar despertos para colocar as bases para aterrissar na
realidade e superar os obstáculos.
Perante Deus e perante a lei somos todos iguais, é verdade; mas, depois, quando a vida
segue seu curso normal, vemos que há muito mais sinais de desigualdade que
propriamente de uma conduta coerente com a igualdade que une todas as raças.
A denúncia de ações racistas, nos últimos anos, vai se tornando recorrente. Não quer
dizer que antes não houvesse, mas esperávamos que em pleno século XXI, depois de
tantas conquistas humanitárias, tivéssemos superado essa postura marcada por uma
infeliz ignorância.
Certamente é mais claro identificar o racismo em palavras e gestos que tendem a
humilhar e inferiorizar o outro por causa da sua procedência ou a cor da sua pele. Mas
há outras manifestações da sua presença na sociedade que se escondem nas realidades
que as estatísticas mostram. São dados relativos à educação, a condições de moradia, à
escolaridade, à profissão, à participação na vida pública, etc. que demonstram uma
ausência silenciosa dos negros e isso deve nos fazer pensar.
Quando se trata de racismo há sempre presente por trás uma ideia de suposta
superioridade de uma raça sobre a outra. Trata-se de mais uma manifestação da velha
tentação da humanidade do domínio sobre o outro, que neste caso se conseguiria,
subjugando o irmão por uma “inferioridade” desprovida de qualquer fundamento.
Talvez por tendências intelectualistas muito fortes no Ocidente nos enganamos
pensando que a instrução e a conscientização sozinhas garantiriam superar esses
abismos. Bastaria saber para fazer. Mas não tem sido assim. Mesmo com a
universalização dos ideais de igualdade, vemos ressurgir em toda a parte tendências que
cada vez mais dividem as pessoas.
Apesar de uma consciência quase generalizada de que o racismo seja um mal, ele
continua presente e assumindo formas antigas e novas. O Papa Francisco, na recémpublicada encíclica Fratelli tutti (Todos irmãos), toca na ferida ao dizer que “não se
alcança a igualdade definindo, abstratamente, que ‘todos os seres humanos são iguais’,
mas sim é o resultado do cultivo consciente e pedagógico da fraternidade” (n. 104). E
indica que “para se caminhar rumo à amizade social e à fraternidade universal”, faz-se
necessário, “dar-se conta de quanto vale um ser humano, de quanto vale uma pessoa,
sempre e em qualquer circunstância” (n. 106).
Na perspectiva cristã, bastante iluminadora para a concretização da fraternidade,
sabemos que cada pessoa é imagem e semelhança de Deus, que todos valemos todo o
sangue derramado de Cristo na cruz, pois Ele morreu e ressuscitou para salvar a todos,
sem exceção.
As lutas sem violência pela reparação e pela igualdade devem prosseguir. Todos devem
se empenhar para que as leis possam amparar uma efetiva garantia de direitos para
todos sem distinção. Trata-se de um compromisso coletivo e não apenas dos negros,
pois juntos somos a humanidade.
Que este dia rememore os que lutaram e os que continuam lutando por isso. Mas ao
mesmo tempo nos comprometa, como cristãos, em um processo de evangelização que tenha uma incidência maior na vida social para que todos os dias sejam dias de consciência fraterna.

*Dom Gilson é carioca, nascido no Méier e criado em Mendes no sul fluminense. Fez parte do clero de Petrópolis, estudou em Roma e foi bispo auxiliar de Salvador (BA). Nomeado pelo Papa Francisco em 27 de junho de 2018, tornou-se o 6º bispo da Diocese de Nova Iguaçu.