Dez referências para (re) humanizar as relações

março 6, 2021 /

 

*Dom Gílson Andrade

 

Uma das primeiras coisas que se aprendem na religião cristã, como base até mesmo da reflexão acerca do comportamento moral, é o código de Leis, tradicionalmente chamado de Dez Mandamentos. Muitos de nós nos lembramos da preocupação inicial para aprendê-los de cor, como requisito indispensável da catequese sacramental nas paróquias. Infelizmente, pode se dar o fato de aprender o enunciado dos Dez Mandamentos, mas não aprofundar o sentido teológico e antropológico que eles têm.

Alguns autores, como C.S. Lewis, empenharam-se por mostrar que as grandes civilizações antigas traziam códigos morais em que muitos preceitos coincidiam com a Lei dada por Deus a Moisés para guiar o povo de Israel, mesmo antes da história do povo hebreu. Tal coincidência, segundo muitos autores, pode ser um indício de que essas referências não sejam enunciados de leis arbitrárias, mas correspondam ao que está no íntimo do coração de todo homem e toda mulher.

Os Dez Mandamentos foram na história de Israel mais do que um código de leis. Eles eram um sinal da Aliança que Deus havia feito com o povo. Portanto, Israel sempre teve claro que “antes dos mandamentos de Deus estava o Deus dos mandamentos”, conforme afirmação de São João Paulo II. De fato, no Livro do Êxodo, antes de entregar a Lei a Moisés, Deus diz: “Eu sou o Senhor, teu Deus, que te fez sair da terra do Egito, da casa da escravidão” (Ex 20, 2).

A doação da Lei é parte integrante do processo de libertação do povo. Os Dez Mandamentos apresentam a pauta para uma vida livre de escravidões que degradam a pessoa humana e a aprisionam nos emaranhados de interesses que não visam à plena realização dos ideais humanos.

No Novo Testamento, Jesus retoma essas referências e as aperfeiçoa ao colocar no coração dos mandamentos a lei do amor. Assim, Cristo diz que o primeiro mandamento é amar a Deus e o segundo, é semelhante e tem a ver com o amor ao próximo. Como diz Santo Irineu, “o Senhor prescreveu o amor para com Deus e ensinou a justiça para com o próximo, a fim de que o homem não fosse nem injusto nem indigno diante de Deus” (Contra os hereges, 4).

Os mandamentos falam de uma “ordem” no amor que garante ao ser humano chegar ao ideal de realização de sua humanidade. Percebe-se neles um escalonamento nas relações que abrangem a todas as pessoas. A referência a Deus é a primeira, uma vez que todos somos criaturas suas. Quando essa indicação passa a não estar presente, também as outras relações ficam prejudicadas. Ter Deus como horizonte da vida permite colocar no justo equilíbrio a relação com os outros seres humanos (o próximo) e com toda a realidade criada.

Ensina o Catecismo da Igreja Católica que ao mesmo tempo que os Mandamentos pertencem à Revelação divina, eles “nos ensinam a verdadeira humanidade do homem. Iluminam os deveres essenciais e, portanto, indiretamente, os direitos humanos fundamentais, inerentes à natureza humana” (n. 2070).

A liturgia quaresmal deste 3º domingo da quaresma traz, em uma das leituras, a passagem do Êxodo relativa aos mandamentos (20, 1-17). É uma oportunidade de redescobri-los à luz do amor e do interesse de um Deus que luta com o ser humano pela sua libertação integral e que, por isso, quis deixar-lhes 10 referências para uma vida plena.

Em um mundo tão confuso e hostil, ter essas referências pode colaborar para um processo de “re-humanização” de muitas de nossas relações.

 

*Dom Gilson é carioca, nascido no Méier e criado em Mendes no sul fluminense. Fez parte do clero de Petrópolis, estudou em Roma e foi bispo auxiliar de Salvador (BA). Nomeado pelo Papa Francisco em 27 de junho de 2018, tornou-se o 6º bispo da Diocese de Nova Iguaçu.