Cidades fabricadas

fevereiro 4, 2021 /

*na foto em destaque, Neon, na Arábia Saudita

 

*Vicente Loureiro

 

Neste início de século, o mundo tem assistido um brotar de novas cidades, em escala e velocidade talvez nunca vistas. Só na China andam, segundo estimativas, a construir 20 delas por ano. Verdade que algumas ainda a espera de moradores. Como é o caso de Kangbashi, preparada e pronta para receber um milhão de habitantes, mas só 50 mil chegaram lá por enquanto. Há casos semelhantes, já batizados inclusive de cidades fantasmas. Mas há também soluções exemplares como Xiong’an, tida como referência de cidade do futuro. Autossuficiente em tudo e capaz de ter vida plena mesmo em períodos de confinamento prolongado. Pelo menos assim atestam seus projetistas.

Mas não é só na grande potência asiática onde cidades estão sendo plantadas. Em diversos países da própria Ásia, da África e do Oriente Médio inéditos experimentos urbanos vem ocorrendo. Alguns até em parceria com chineses mas nem todos. Os propósitos de tais empreendimentos, são dos mais variados. Ora pretendem redefinir a posição do país promotor no mundo. Ora destinam-se a explorar riquezas abundantes ou o ocaso delas. De outra feita o mote é aproveitar uma localização privilegiada ou mesmo criar novos polos de desenvolvimento econômico. Ou simplesmente mudar uma capital de lugar devido a superpopulação da atual ou ameaças climáticas eminentes.

Maquete de Forest City, na Malásia

Há duas ou três dezenas de casos emblemáticos de novas cidades, em implantação ou já inauguradas nos últimos 20 anos. E atendendo objetivos distintos. Alguns salpicadas de utopias e outros mais pragmáticos, tratados como um grande negócio. Mas todos, sem distinção, apresentando-se como iniciativas sustentáveis e inteligentes. Pode-se até afirmar que em sua maioria tratam-se como cidades temáticas. Chamadas Forest City ou Smarty City. Ou então assumidamente vinculadas a distritos empresariais, infraestruturas portuárias ou centros de comércio e turismo. Além daquelas destinads a abrigar novas capitais. Os adjetivos usados são incontáveis e podem estar presentes em todas elas. Independente da localização na Mongólia ou na Península Arábica.

Nova Cidade do Cairo, no Egito

 

Sustentáveis, autossuficientes, florestais, inteligentes, high techs,futuristas, energeticamente equilibradas, automatizadas, entre outras características, emprestam as cidades fabricadas narrativas contemporâneas, ecológica e tecnologicamente corretas ou adequadas. Na prática o que é comum a quase todas são as inovações anunciadas. Cá entre nós, já um pouco manjadas. Como a de ter foco nos cidadãos, abolir o uso do automóvel, estimular os deslocamentos a pe ou de bicicleta, reduzir emissões, utilizar energias renováveis e tecnologias de última geração com sistemas de de gestão digital aplicados aos servicos e espaços públicos. Chegando inclusive a alguns exageros como os presentes na chamada Cidade Bolha, nos Emirados Árabes, que será inteiramente coberta e climatizada, com temperatura em torno dos 23°C. Ou mesmo a de outras onde haverá “cultivo” de nuvens, calçadas com calefação entre outras invenções para controle do clima. Tendo como objetivo permitir aos futuros moradores viverem a cidade ao ar livre. Independente do frio ou calor extremo impostos por sua localização. E da efetiva sustentabilidade de tais parangolés tecnológicos.

Xiong’an, China

 

Os modelos de tais incorporações urbanísticas avantajadas, incorporam entre outros os predicados das cidades de 15 minutos, desenhando-as policêntricas, compactas e ambientalmente sustentáveis. A excessão vistosa fica para Néon. Uma cidade linear com 160km de extensão e atravessando um deserto, sonhada pelo príncipe herdeiro da Arábia Saudita. Mesmo incorporando conceitos como os aqui enunciados, inspira-se na concepção de cidade, de autoria do urbanista espanhol Arturo Seria y Mata, no final do século XIX. Claro que incrementada por inovações tecnológicas e infraestruturas verdes.

O que une todas elas é estarem saindo do zero, quase na totalidade sendo patrocinadas por PPP’s ou por governos com recursos sobrando e possuírem metas ousadas. O sucesso obtido por alguns de seus propósitos certamente servirão de inspiração para alavancar mudanças em cidades como as nossas. Pelo jeito a polêmica sobre ser possível ou não fazer cidades de fato nascerem do nada seguirá intensa. E será renovada enquanto estiverem sendo fabricadas.

 

*Vicente Loureiro. arquiteto e urbanista, doutorando em urbanismo na Universidade de Lisboa e autor do Livro Prosa Urbana