Cidade vazia

janeiro 13, 2021 /

 

*Vicente Loureiro

 

 

Lanço mão do título de um samba-jazz de autoria do Baden Powell para expressar percepção sentida quando se passa pelo centro do Rio. O coração e principal razão de ser da vida metropolitana por aqui. Me ocorre também, diante de tal sensação, resgatar uma expressão, capaz de sintetizar bem tamanho magnetismo. Aquela, que, até moradores de outros municípios da região, utilizam quando precisam ir ao centro do Rio: “vou à cidade”. Assim afirmam, não importando se estejam em Nova Iguaçu, Caxias, São Gonçalo ou mesmo Niterói. É costume, entre eles, dizer ” vou lá fora” quando se dirigem à área central de suas próprias cidades. “Ir à cidade” pressupõe visitar o Rio.

Tal hábito não surgiu ao acaso. Desde que o fato metropolitano começou a existir, o centro do Rio de Janeiro passou a cumprir funções urbana para além daquelas exercidas enquanto sede da Corte, do Império ou Distrito Federal republicano. Adicionou à centralidade nacional até então praticada, demandas de natureza regional. Impostas por um cotidiano de relações econômicas e sociais cada vez mais intensas e dele dependentes. Adquirindo caráter simbólico, a ponto de transformar-se numa espécie de cidade de todas as cidades componentes dessa grande metrópole.

Mas, tempo e circunstâncias fazem as cidades assistirem papéis conquistados e destinos traçados mudarem de mão e direção. Assim, veio acontecendo com o centro do Rio ao longo dos últimos 40 ou 50 anos. Diversas forças, centrípetas e centrífugas, provocaram significativas alterações em suas vocações e missões. Muitas atividades importantes foram levadas ou expulsas para outras plagas, inclusive dentro da própria cidade. A Barra da Tijuca e os Shoppings Centers são exemplos de mudança sem precedentes do CEP de muitos negócios e serviços. Outras foram catapultadas para mais longe, indo parar em Brasília e São Paulo principalmente.

Funções do Governo Federal, sede da Bolsa de Valores, serviços médicos, comércio sofisticado e moradias, muitas moradias foram “centrifugadas” para todos os lados da cidade, da Metrópole e até do país. Ano após ano, esse esvaziamento político, econômico e das funções urbanas mais importantes se deu de forma diversa, mas com efeitos cumulativos. Reações do poder público, iniciativas de empresas e corporações e recomendações da Academia e de profissionais de arquitetura e urbanismo, entre outras, tentaram conter tal debandada. Mesmo quando exitosas, não deram conta de promover uma reversão efetiva da decadência e degradação urbanística deflagrada.

A última crise econômica, agravada pela pandemia do Coronavírus, talvez explique parte dos assustadores números de retração dos negócios e comprometimento da qualidade dos espaços públicos do “core” do Rio. Quase uma em cada três lojas fechadas, as calçadas tomadas de dia por camelôs e a noite por população em situação de rua, fazem da recuperação da área central, um dos maiores desafios para o novo governo.
A boa notícia é o foco do prefeito e sua equipe neste pedaço tão importante da cidade. Berço de tantas inovações e exemplos do fazer urbano para todo o país.

*Vicente Loureiro. arquiteto e urbanista, doutorando em urbanismo na Universidade de Lisboa e autor do Livro Prosa Urbana