Cidade para os pedestres

outubro 20, 2020 /

*Vicente Loureiro

Em recente estudo realizado pelo Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP), destinado a aferir a mobilidade nas cidades em todo mundo, as brasileiras aparecem em posição vexatória. Ostentam um percentual médio de habitantes com acesso a pé a serviços de educação e saúde, por exemplo, bem abaixo dos obtidos naquelas consideradas mais caminháveis, entre elas as latino-americanas Lima, Santiago e Bogotá. Enquanto nas melhores colocadas no ranking apresentado pela pesquisa, cerca de 80% dos moradores estão no máximo 1 km dos equipamentos prestadores de serviços essenciais, nas nossas a média não chega a 50%. Quer dizer distribuímos mal no território tais equipamentos, concentrando-os em áreas com população de maior renda. Acentuando ainda mais a desigualdade social intra-urbana, já tão elevada.

Mas o levantamento nos alenta, pois comprova que as cidades podem ser mais inclusivas, saudáveis e seguras. Para tanto precisão saber ampliar a caminhabilidade em seus territórios. Entendendo a mobilidade das pessoas como política pública promotora da equidade e e sustentabilidade. Capaz de facilitar o acesso aos bens e serviços básicos, melhorar a saúde dos cidadãos e inclusive alavancar o desenvolvimento econômico.

O trabalho do ITDP visa contribuir para uma tomada de atitude de governantes, planejadores urbanos, ativistas comunitários, entre outros, em colocar o pedestre em primeiro lugar nos ambientes urbanos. Para tanto reúne exemplos de ações de baixo custo, mas de forte impacto, capazes de tornar as cidades mais amigáveis a eles. Destaca o principal fundamento para ampliar a capacidade de caminhar nas áreas urbanas: levar serviços essenciais para mais perto das pessoas. Incluindo os de saúde, educação, lazer, os espaços livre dos carros e ainda as linhas de transporte coletivo. Tornando os benefícios da cidade alcançáveis por um trajeto a pé de 15 minutos.

Além disso, será necessário também para aumentar a caminhabilidade da cidade, cuidar das calçadas e passeios. Estabelecendo rotas para circulação de pedestres em obediência a três recomendações: as relativas as calçadas em si, como regularidade da pavimentação, sua largura e inclinação transversal, livres de obstáculos e barreiras e ainda possuir rampas e demais cuidados de acessibilidade. Aquelas destinadas a promover em segurança as travessias em vias onde circulam automóveis, como faixas e semáforos para pedestres, e mapas e placas de sinalização. e por último, aquelas responsáveis por garantir a ambiência agradável a tais rotas, como os recursos paisagísticos e proveniente da arborização, os cuidados diante da poluição sonora e ambiental, e os de conforto e comodidade oferecidas pela presença de mobiliário Urbano.

Para incentivar o hábito do caminhar na cidade é preciso garantir segurança através da qualidade e dimensões das calçadas, da objetividade e clareza da sinalização do tráfego, da atratividade dos percursos e destinos componentes das rotas de caminhada e do conforto e comodidade da ambiência, incluindo a segurança pública. É trabalhoso. Requer planejamento, ações educativas e de estímulos, mas não pressupõe grandes obras com investimentos proibitivos. O tempo de mandato de um governo é suficiente para permitir que 100% da população da cidade cumpram suas necessidades básicas há no máximo 1 km de casa. Caminhar será cada vez mais presente na mobilidade urbana. Preparar as cidades e as pessoas para essa mudança inevitável será um dos desafios mais importante dos novos prefeitos.

*Vicente Loureiro,arquiteto e urbanista,doutorando em urbanismo na Universidade de Lisboa e autor do Livro Prosa Urbana.