Chega de saudades

abril 23, 2021 /

*Vicente Loureiro

 

Para alguns cariocas, o dia 21 de abril, data da fundação de Brasília, parece ser também o da tentativa de assassinato do Rio. Causa de feridas até hoje não cicatrizadas. Como se a transferência da capital pudesse ser o único motivo da perda de rumo e da decadência verificada na cidade maravilhosa desde então. Quando, 15 anos depois, segundo entendimento desses mesmos cariocas, ela sofre um assalto à mão armada, provocado pela fusão com o antigo estado do Rio, principalmente devido ao reconhecimento da existência da região metropolitana, seu estado de saúde, que já vinha debilitado, parece entrar em coma induzido.

Nem sucessivos incrementos de receita, promovidos pelos royalties do petróleo, parecem ter tido a capacidade de revigorar corpanzil então já avantajado, engordado pelas cidades do entorno. Um peso adicional de demandas sobre as comprometidas funções vitais da velha capital. Segundo a visão saudosista desses cariocas retrógrados, só a volta da capitalidade poderia devolver ao Rio o esplendor perdido.  Ledo engano.

Brasília não surgiu do acaso. Nem tão pouco a fusão e o reconhecimento do fato metropolitano a sua volta são frutos de maquinação macabra de inimigos do Rio. Juscelino Kubitschek, o pai de Brasília, dizia que levar a capital para um sítio no Brasil Central era a possibilidade de livrá-la da tradição golpista incrustada no Rio. Quarteladas ou similares com origem nessas bandas parecem dar razão ao ex-presidente, pelo visto não tão bossa nova assim.

Herdar, através de uma penada, passivos sociais e urbanísticos da Baixada Fluminense, São Gonçalo e companhia também não deve ser contabilizado como dívidas de São Paulo, Minas Gerais ou mesmo da União. Nem tão pouco parece possuir mínimo senso de justiça não querer compartilhar os recursos do então Distrito Federal com aqueles que, com sua força de trabalho, ajudaram eles a existirem. Toda essa periferia metropolitana se estabeleceu em busca de oportunidades que o Rio oferecia. Ao contrário das outras metrópoles brasileiras, no primeiro momento, por ser capital da República, o Rio não precisava se ocupar dessa fábrica de carências que se instalava ao seu redor. A grande obra da estação de tratamento de água do Guandu, durante muito tempo servindo apenas ao abastecimento do Rio, apesar de se localizar fora dele, é prova dessa visão Rio centrada dos problemas e soluções.

Sem dúvida, tais ocorrências foram violações traumáticas sofridas pelo Rio. Lá se vão mais de sessenta anos de entrega à Brasília da coroa e do cetro de capital. Quase cinquenta, do reconhecimento forçado que o então Distrito Federal não tinha de fato muralhas. Tempo suficiente para se ter buscado e consagrado outros rumos e missões para a cidade ou para a metrópole. Prazo também, mais que necessário, para realizar encontro de contas e buscar possíveis indenizações a que o Rio tivesse direito por perder tantos serviços e personalidade de uma só vez.  As circunstâncias políticas, econômicas e institucionais não permitiram usar esse meio século para remir dívidas, consagrar expectativas de direitos não honradas e saudar até boletos de sonhos interrompidos. O que não é saudável para esta cidade nem para seu futuro, é continuar a velar esse defunto insepulto chamado Distrito Federal.  Como se existisse o condão de reviver, por um passe de mágica ou ato de ofício qualquer, o horizonte um dia perdido.
Lamentar é possível.  Agarrar-se ao passado não se faz necessário. O Rio, como qualquer cidade, precisa é do futuro. Não progredirá sem ele. Do que ele foi, devemos tirar lições e inspiração, principalmente por ter sido tão venturoso. É terapêutico reconhecer:  o que já se foi não garantirá o que virá a ser. As potencialidades, bem aquilatadas e trabalhadas com afinco, podem devolver esse Rio pujante, porém verdadeiro e real,que tanto se idolatra. Trata-se de uma das cidades mais reluzentes e reconhecidas do mundo. Continua sendo referência de costume e comportamento para o Brasil e toda a América do Sul.  Tratar desses ativos pode render mais resultados do que insistir em fazer o tempo voltar. Chega de saudades, o Rio quer mais de nós!

*Vicente Loureiro. arquiteto e urbanista, doutorando em urbanismo na Universidade de Lisboa e autor do Livro Prosa Urbana.