Celebrar sem deslembrar

abril 30, 2021 /

 

*Vicente Loureiro

No 30 de abril, comemora-se o dia da Baixada Fluminense. Esse pedaço de território com mais de 100 Km de comprimento por uns 40 km de largura na média. Limitado ora pelo mar, ora pelas serras, a lhe emprestar silhueta de um grande tabuleiro. Ocupado há milhares de anos, como atestam diversas ocorrências arqueológicas, ele tem sido palco de muito mais chegadas do que partidas, numa sobreposição de povos e culturas a resultar em hábitos e costumes próprios, motivações mais que prováveis para celebração do seu dia.

Tupinambás e outras etnias viram chegar primeiro os portugueses e seus degradados, tempo depois, os africanos escravizados. Já no império, foi a vez de imigrantes de diversas partes do mundo sentarem praça nessas bandas. Até chineses deram com o costado por aqui à época. Do final do século 19 em diante, não pararam de aportar na região europeus, árabes, judeus e asiáticos, mais recentemente africanos, oriundos de países lusófonos, também apareceram. Dessas ondas migratórias, destacam-se novamente portugueses, além de italianos, alemães, espanhóis, sírios, libaneses, japoneses e coreanos, entre outros. Fugidos quase sempre da fome e de guerras. Todos ávidos por uma nova e próspera vida. Foram deitando raízes e deixando marcos. Mas, apesar de importantes todas as contribuições de povos tão distintos, nada se compara aos impactos gerados pela avalanche de migrantes de outras partes do país que vieram para Baixada a partir dos anos 40 do século passado.

Torre sineira do cemitério da antiga Vila de Nossa Senhora da Piedade de Iguassú, que foi erguido por escravos no século XVIII, teve as escadarias restauradas e o próximo passo é a colocação de grama nas laterais.

Além de fazer, em pouco tempo, a população da região multiplicar-se exponencialmente, os mineiros, nordestinos, gaúchos e até fluminenses, dentre outros brasileiros, puseram ainda mais ingredientes no caldo de cultura que já era cozido por aqui. Talvez leve algum tempo para que tamanha miscigenação de hábitos, costumes e até valores amalgamem-se num jeito único de ser deste lugar, resultante de tantas e diversas influências. Celebrar a região é um passo importante na direção de reconhecer o que a distingue, fazendo a ser como é. Guardando características identitárias reveladas na linguagem, no comportamento, nas manifestações artísticas, culturais e religiosas. E com uma resiliência, diante das agruras da vida urbana, repleta de sacrifícios e carências de fazer inveja.

Estação de Nilópolis com trem a vapor e jardineiras, provavelmente anos 1920 (Autor desconhecido)

Porém, as mais de 3 milhões de pessoas que habitam hoje a Baixada não tem muito a comemorar. Ao contrário. Dos 13 municípios componentes da região, 3 estão entre os 10 com a pior cobertura de saneamento do país. Entre as 100 maiores cidades brasileiras, 4 da Baixada estão classificadas entre as 5 piores para se viver. Esses, entre outros indicadores, tornam, de certo modo, incômoda a celebração. Ao mesmo tempo que é inegável a importância de saudar os esforços despendidos pelos que aqui chegaram e, com muito trabalho, ocuparam e moldaram o território as suas necessidades, é preciso lembrar o quanto falta ainda hipotecar para livrar a região das sequelas urbanísticas, sociais e ambientais deixadas por processo de transformação tão acentuado e promovido em período tão curto. Mais ou menos como acontece com aniversário de adolescente: comemora-se a juventude próxima ao mesmo tempo que se lamenta a infância perdida.

Japeri é referência hoje em esportes radicais

Nessa região, de tantos contrastes, é preciso celebrar os acúmulos e legados deixados por todos que aqui passaram. Plantando cana, café, laranja e cidades. Mas é indispensável não deixar de mostrar o quanto precisa ser feito para que ela, de fato, vire uma região mais que acolhedora, capaz de oferecer de modo equânime e justo a todos, sem exceção, um lugar bom de se viver. Portanto, parabéns Baixada Fluminense, muita saúde, paz e prosperidade para você e todos os seus.

 

 *Vicente Loureiro. arquiteto e urbanista, doutorando em urbanismo na Universidade de Lisboa e autor do Livro Prosa Urbana