Arraial do Tijuco

janeiro 6, 2021 /

 

*Victor Loureiro

 

Diamantina não é só um pedaço do território de Minas Gerais. Não é apenas mais uma cidade mineira com um fardo de ouro e preciosos patrimônios. Lá, o significado dos tangíveis edifícios tomba sobre a intangibilidade de suas histórias.

– Não se trata de carregar um diamante no nome, trata-se de ser o próprio diamante a reluzir diante de nossos olhos históricos, imersos na alma das coisas, em seus mistérios e humanidades. Parabéns por ter estado imerso nessa atmosfera única e diamantinamente clara. – disse ao meu genro, que postou uma foto na internet, encantado com a cidade.

– Precisamos de tombamentos tangíveis e intangíveis – continuei a argumentação – dois universos que, às vezes, podem parecer incompatíveis, mas que são complementares. Não devemos afastar as coisas segundo sua natureza material ou imaterial. O imaterial está no material e vice-versa.

Os musgos, os rastros das fendas de hera nos sulcos dos muros, a leitura dos que falaram sobre as varandas quentes e arejadas quando Cacá Diegues colou corpos no assoalho fresco, cortados pelos losangos dos muxarabis e treliças, deixando os retalhos explodirem na nossa imaginação, em seu filme Xica da Silva, tudo isso mostra como o irreal pode ser real, e, vamos e venhamos, não haveria prédios se não houvesse a luz do espírito criativo dos arquitetos para concebê-los.

Não costumamos pensar um lugar árido, como a Serra do Espinhaço, de nome árido, como sendo um lugar bonito. Mas Diamantina, na minha opinião, tomba por terra essa impressão. O árido aqui não é antônimo de úmido. Diamantina dói os olhos da gente, atiça nossa cobiça por beleza, flutua em seu ar de cristal. É como estar dentro de um diamante, como se o seu céu fosse os vitrais da Catedral de Brasília, vistos de dentro, de dentro do diamante que torna as noites mais claras e azuis. Diferente de tudo.

Deveria ser pendurada no pescoço do mundo, abrir sobre o peito da humanidade o seu brilho diamantino, cristalino como o cabralino Beberibe do Recife. O Brasil está na mira dessa lente de pedra preciosa: por Diamantina, vê-se todo o país. O amor é egoísta diante dessa beleza árida e da permanência úmida no útero de nossas lembranças, deixa nossa alma mais preciosa.

Diamantina pertenceu ao município do Serro, onde nasceu Xica da Silva, mas o Serro é outro cristal do caminho, diferente, é mais um ingrediente desse mesmo produto onde os jovens de 2021 brilham e colam seus corpos nas mesmas varandas e praças, espalhando belezas de um DNA inventor de histórias.

Em 2120, que algum ourives de palavras, que se apoia na beleza das coisas diamantinas para dizer que escreve, registre esse brilho secular. Tomara.

 

* Victor Loureiro é escritor, gestor público e professor de Ciências e Biologia.