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fevereiro 11, 2021 /

Padre Júlio Lancelotti (foto), da Pastoral do Povo de Rua, sob viaduto na Zona Leste de SP onde prefeitura instalou pedras no chão
Fotos : Reprodução / Instagram  e Google Imagens

*Vicente Loureiro

 

 

O erro de grafia no título é proposital. Tenta sintetizar o sentimento de cidade adversa, desfavorável, hostil, captada pelas imagens de pedras plantadas recentemente embaixo de pontes e viadutos no centro de São Paulo com intuito de inibir o pernoite de moradores de rua. As marretas de um padre removendo-as para substitui-las por flores, ajuda a extravasar a indignação diante da brutalidade gratuita do ato em si. Não resolve o problema mas põe foco a questão sobre o uso e apropriação dos espaços públicos. Nos faz lembrar que aqueles, cujas pedras tentam afugentar, são consequências e não causas da degradação dos ambientes de uso comum do povo nas áreas centrais das principais cidades brasileiras e de outras mundo afora.

 

Na verdade, iniciativas semelhantes a esta, chamadas de arquitetura hostil, nasceram na década passada em cidades do mundo dito civilizado e desenvolvido. Londres talvez guarde os exemplos mais paradigmáticos e pioneiros dessa forma subliminar, mas agressiva, de promover um “passa fora” nos sem teto, aqui conhecidos, desde a fundação das cidades, como os sem eira nem beira. Tais medidas, em que pese o diversificado portfólio, indo desde os pinos pontiagudos antimendigos até regadores intermitentes instalados em pisos ou marquises, passando pelos bancos inclinados só para encostar ou aqueles com braços para só sentar, não surtiram efeitos por lá onde foram criadas. Não funcionarão tão pouco por aqui. Manifesto com mais de 100 mil assinaturas levaram a prefeitura de Londrina a recuar. Em São Paulo, a responsabilidade foi terceirizada para um funcionário de escalão inferior. Mas a iniciativa, para além de inócua, é contraditória, pois fere na essência a missão consagrada aos espaços públicos desde os primórdios das cidades: ser o lugar da convivência, das trocas, da liberdade e da diversidade, e principalmente de todos, sem exceção.

Lidar com tarefa de incluir e não enxotar não é simples e nem imediata. Passa longe também do paternalismo indulgente. Requer mudança no modo de olhar o problema. Os artefatos da intolerância, por mais bem “desenhadas” que sejam, agridem não só seu público alvo. Brutalizam os espaços nascidos para acolher a todos. Roubam-lhe, só de olhar, a sensação de pertencimento e urbanidade que sua função no tempo conquistou. Adubam a depredação ao invés de revertê-la. Pressões dos grupos de interesse, bafejadas pelas mídias, costumam pressionar dirigentes para essas soluções imediatistas. Erram no agir e nas expectativas. Consideram o tempo adversário e não aliado na construção de medidas inclusivas e sustentáveis. Longe dos passes de mágica.

Se coação ou repressão aos “indesejáveis” desse jeito, nossas cidades não teriam tantos camelôs. Pelo menos desde a grande crise do petróleo, eles tomaram conta dos seus espaços públicos mais movimentado. Independente de governos mais repressores ou condescendentes, eles vieram para ficar. Pelo menos enquanto a economia da desigualdade continuar a renová-los com eficácia incontestável. O espaço público virou o CEP da iniquidade. Endereço dos sem trabalho e renda, dos sem abrigo e dos sem destino. Expulsá-los à “manu militari” ou com a sutileza” dos pedregulhos plantados é “enxugar gelo” ou, como se dizia antigamente, “fazer política para inglês ver”. A tolerância zero deve ser dirigida à exclusão, não aos excluídos.

*Vicente Loureiro, arquiteto e urbanista, doutorando em urbanismo na Universidade de Lisboa e autor do livro Prosa Urbana