Advento: renovar a mesma novidade

novembro 29, 2020 /

 

*Dom Gílson Andrade

 

Este domingo, 29 de novembro, marca o início do tempo de preparação para o Natal do
Senhor. É o Advento, cujo significado tem a ver com “chegada”, “vinda” “presença”. São
4 semanas, marcadas pela recordação das profecias da promessa da salvação de Deus e
pelo insistente convite à vigilância.
Com ele o cristão é convidado a despertar para a chegada certa do Senhor que vem no
Natal, mas que também escolheu irromper na vida da gente em tantas situações especiais
e nas mais corriqueiras. Por isso ouvimos Jesus no Evangelho a nos alertar: “Cuidado! Ficai
atentos, porque não sabeis quando chegará o momento” (Mc 13, 33). O momento a que
se refere Jesus não é apenas o fim dos tempos ou a hora da morte, mas também as
constantes visitas que Ele faz, trazendo novidade à vida da pessoa e à história do mundo.
É oportuno que todos os anos se reserve um tempo para esperar aquele que já chegou,
mas que também chega todos os dias, “renovando assim a mesma novidade” (Orígenes,
séc. III). O grande problema é acostumar-nos com a visita de Deus de tal modo que nos
tornamos insensíveis ou indiferentes a esta presença que é sempre nova. Passam os anos,
renovam-se os acontecimentos e acabamos por perceber que a única possibilidade de
real novidade parte de Jesus Cristo. A sua Ressurreição é o único fato inédito da história
e é a garantia da vitória do amor em cada época.
Recentemente visitava uma comunidade terapêutica da Casa do Menor e ouvi
testemunhos que coincidiam em afirmar que a vida vivida na rua, nas drogas, no desamor,
encontrou possibilidade de renovação real quando encontrou o amor de Deus. A presença
do Ressuscitado é portadora de vida no meio de tantos sinais de morte no momento
presente.
Nossas expectativas de libertação talvez se tornaram ainda mais vivas depois das tantas
pandemias que vimos surgir no ano de 2020. Atravessamos o ano com uma sombra que
nos acompanhou, semeando lutos, incertezas e medos. Mas, os sinais da presença do
Crucificado Ressuscitado também nos acompanharam.
Podemos citar tantos exemplos: as descobertas na vida de família; as palavras do Papa
Francisco; na Igreja fizemos a descoberta ainda mais concreta de um ensinamento do
Concílio Vaticano II, a Igreja doméstica como lugar de comunhão com Deus e com os
irmãos, de escuta da Palavra de Deus, de oração e de caridade; tanta bondade
evidenciada em tantas iniciativas a favor dos mais vulneráveis; e a convicção, tímida
ainda, mas real de que a humanidade precisa ser diferente.
O tempo do Advento é tempo de profecia. Ouviremos Isaias, João Batista, e outros
profetas, mas também cada cristão deve assumir com urgência a dimensão profética do
seu Batismo e ter a coragem de falar do amor de Deus e do seu projeto para uma
humanidade nova. Por meio de tantas profecias Deus preparou o Natal de Jesus entre nós
há dois mil anos. Hoje, novos profetas, espalhados pelas casas e nos mais diversos
ambientes da convivência humana, deverão preparar um Natal diferente: de mais
realidade e menos fantasia, o mesmo Natal de Jesus que encheu outrora o coração de
tantos homens e mulheres simples de uma esperança certa.
A certeza com encontro o Senhor inspire nossa oração, as Novenas de Natal celebradas
em família, as numerosas iniciativas de caridade, de atenção aos tristes e abandonados,
enfim, o clima de verdadeira festa marcado pela presença certa do Senhor.
Bom Advento!

*Dom Gilson é carioca, nascido no Méier e criado em Mendes no sul fluminense. Fez parte do clero de Petrópolis, estudou em Roma e foi bispo auxiliar de Salvador (BA). Nomeado pelo Papa Francisco em 27 de junho de 2018, tornou-se o 6º bispo da Diocese de Nova Iguaçu.