A nova Era Urbana

dezembro 2, 2023 /

*Vicente Loureiro

 

O congresso Smart City e Mobilidade do Futuro, realizado recentemente em Barcelona, usava essa expressão tentando dizer aos participantes que para além do fato de 54% da população da terra já viver em cidades, essa nova era da civilização está a exigir cada vez mais inovações para dar conta dos desafios climáticos, sociais e econômicos a ela impostos. O encontro, envolvendo cerca de 25 mil gestores e especialistas em cidades de todo mundo, pretendia por luz no estado da arte das novas tecnologias disponíveis e dos conceitos transformadores do modo de pensar e agir sobre as áreas urbanas.

O ponto alto foi exposto numa carta, subscrita por 26 prefeitos de grandes cidades europeias, chamada “Declaração de Barcelona”. Na verdade, um manifesto em defesa da democracia inclusiva e da luta contra a desinformação. Renovando compromissos de valorização e respeito aos direitos sociais, ao estado democrático de direito e à diversidade cultural, deixando claro a urgência de se combater a pobreza, o populismo, a intolerância e a desigualdade. Pressupostos indispensáveis para cidades mais justas, inclusivas e prósperas.

Recomendava a necessidade de se recorrer às informações e dados para construir um novo modo de realizar a participação cidadã, via os canais digitais, e sugeria monitorar o feedback da população para a formulação e implantação de políticas públicas mais assertivas e focadas, entendendo que os problemas das cidades, no caso as europeias, estão muito mais nos “softwares” do que nos “hardwares”, convencidos de que ouvindo as pessoas pode-se, inclusive, conseguir maior êxito nas mudanças comportamentais, quando necessárias.

Apontava ainda tal declaração, diante do aumento das desigualdades socioeconômicas, a necessidade de se reconhecer a dimensão urbana das políticas públicas e de se garantir a sustentabilidade e justiça fiscal, via principalmente a descentralização de recursos, destacando o protagonismo dos governos locais na promoção de mecanismos de recuperação e resiliência ambiental, de implantação de políticas de coesão social, de ampliação do mercado de trabalho, de oferta de habitação popular e, principalmente, de igualdade de gêneros.

Tentava também anunciar como serão as cidades do amanhã, assegurando não haver mudanças previstas em seus aspectos físicos, mas sim nos modos como viveremos nelas, tendo que lidar com conceitos de limite máximo de usos sobre o território, com novas tipologias para o morar e com a noção de distância mínimas para satisfação das necessidades cotidianas, e, ainda, das influências crescentes do trabalho remoto, da digitalização, da automação, do e-commerce e até da inteligência artificial.

Autopistas para bicicletas, uso intensivo de novas tecnologias para enfrentar os impactos das mudanças climáticas, calculadoras de carbono para que consumidores o gastem menos e melhor e façam compensações de emissões via cartão de crédito. Estações de cargas nos bairros são algumas das inovações destacadas como referências de mudanças em curso. A nova Era Urbana promete fazer a cidade continuar a cumprir sua sina: a de inovar sempre para enfrentar crises.

*Vicente Loureiro, Aquiteto e Urbanista, doutorando pela Universidade de Lisboa, autor dos livros Prosa Urbana e Tempo de Cidade.