A Lagoa Rica

março 20, 2021 /

*Vicente Loureiro

 

Quem deu o mote para este artigo foi um amigo, o arquiteto Luiz Firmino, ao me enviar, no último fim de semana, um vídeo filmado às margens da Lagoa de Araruama, onde alguns pescadores capturavam na beirada da praia, quase sem esforço, parte de um extenso cardume de carapebas. A água cristalina impressionava tanto quanto a quantidade de peixes, que, na linguagem deles, era “algo para mais de 500 Kg”.
Nos dicionários, mocorongo, assim como caipira, matuto, jeca, entre outros, é o significado da palavra araruama, embora em sua língua de origem, o tupi, pode tanto ser “abundância de conchas” quanto “bebedouro de araras”. Controvérsias etimológicas à parte, seu sentido não se aplica mais aos nativos daquelas terras. De mocorongos, eles não têm nada. Muito pelo contrário, são espertos e diligentes, além de super antenados ambientalmente. Deve-se a eles e as suas instituições o milagre documentado no vídeo: a recuperação plena da lagoa, na verdade laguna. “Voltando a ser rica” na fala simples, mas precisa, do pescador entusiasmado.

Na verdade, as imagens postadas são resultado de mais ou menos 20 anos de uma trajetória de muito trabalho e mobilização da sociedade local em torno da recuperação da lagoa. Inicialmente, através de um grupo de lideranças representando entidades diversas, que logo se transformaria no embrião do Comitê das Bacias das lagoas de Araruama e Saquarema e dos rios Una, São João e Ostras. Motivando, em seguida, a institucionalização do Consórcio Intermunicipal Lagos São João, cujo objetivo principal era dar mais ênfase e prioridade as ações de coleta e tratamento de esgotos, previstas nos contratos de concessão de serviços de saneamento firmados pelo Governo do Estado em 1998.


Uma importante alteração contratual permitiu, com anuência de todos os interessados, a adoção do método de coleta e tratamento de esgotos em tempo seco. O que possibilitou, em pouco mais de dois anos, contabilizar importantes ganhos ambientais em toda a bacia e principalmente na lagoa. Tal método consiste, basicamente, no aproveitamento de toda a rede de manilhas, originalmente assentadas para captação das águas pluviais, mas que, por conta da expressiva expansão urbana da região, passou também a captar os esgotos. O segredo de sucesso tão rápido está na implantação de galerias coletoras interceptando a rede preexistente, antes de seus desagues nos rios daquela bacia, incluindo aí os mais de 500 pontos de despejo diretos na própria lagoa. Todo esse esgoto é então conduzido para estações de tratamento capacitadas a tratá-lo nos dias de tempo seco. O que, na região dos lagos, significa bem mais que 80% dos dias do ano. Naqueles com chuva, não há tratamento.

Este método de tratamento, proibido por lei no Estado do Rio de Janeiro, é usado em diversas capitais mundo afora. Parece que a exitosa experiência da lagoa de Araruama já está fazendo escola. A modelagem das novas concessões de serviços de saneamento, hoje a cargo da Cedae, incorpora esta metodologia. Só assim, os moradores da capital e adjacências, antônimos de “araruamas”, poderão, em tempo relativamente curto, ter a mesma satisfação e prazer demonstrado por aqueles pescadores. Afinal, a lagoa Rodrigo de Freitas é quase vinte vezes menor que a de Araruama e as de Jacarepaguá e da Barra da Tijuca são praticamente do mesmo tamanho. Até a baia de Guanabara não chega a ter o dobro de sua área. O que falta para ouvirmos dizer que elas também voltaram a ser ricas? Ricas de vida, oportunidades e usos sustentáveis.

 

*Vicente Loureiro, arquiteto e urbanista, doutorando em urbanismo na Universidade de Lisboa e autor do Livro Prosa Urbana