A falta que ela nos faz!

abril 1, 2021 /

 

*Vicente Loureiro

 

Poderia ser da ida ao cinema, ao teatro ou ao show do artista predileto. Talvez uma comemoração festiva entre amigos com farta distribuição de beijos e abraços. Isso para aqueles que acreditam nos efeitos preventivos, destas e outras restrições, diante da circulação e contaminação ainda incontrolável do Coronavírus entre nós. Com suas mais de 300 mil mortes e incalculáveis sequelas pessoais e coletivas contabilizadas.

Mas não é. A ausência mais sentida entre nós, acima dessas e outras tantas, é a do mínimo de bom senso das nossas principais lideranças políticas para compreensão da imperiosa necessidade de compartilhar esforços no enfrentamento dessa doença subsidiária da morte. Que além de nos levar tantas vidas, tem nos sequestrado a esperança, a paz e a confiança no futuro. Ingredientes indispensáveis para se fazer a vida melhorar. Sem seu enfrentamento adequado, com a indispensável compaixão exigida pela situação, nem a recomendação resignada do poeta para “deixar a vida me levar” se faz mais possível.

Um exemplo atual e bem próximo de nós cidadãos metropolitanos desse grande Rio, é o sarapatel de medidas editadas pelos prefeitos da região e pelo governador do Estado. Nelas, o liberou geral ou o fecha tudo depende do entendimento de cada alcaide, nem sempre alinhado à interpretação do Governador em exercício. Na prática, todos pensam estar afirmando sua autoridade e fazendo o melhor. Uns inspirados na primeira-ministra da Nova Zelândia, outros tendo ainda Trump como referência. Na ânsia de mostrar autoridade e suas convicções, esquecem do intenso ir e vir de seus governados, levando vírus a tiracolo do Leblon para Japeri e vice-versa.

Nem momento tão grave como esse é capaz de convencê-los da importância da governança metropolitana. Do compartilhamento efetivo de poder para fortalecer o alcance dos protocolos de funcionamento da vida entre nós. Nas horas e modos de fechar e abrir as atividades. O que contingenciar e o que não pode deixar de ser frequente. O pior é que já existe lei disciplinando a matéria. Incluindo a forma de se exercer esse poder repartido, compatível com a complexidade da vida num território onde divisas foram apagadas pela interdependência das relações econômicas e sociais. O que separa, por exemplo, São João de Meriti da Pavuna é uma quimera política administrativa. Isso se repete em várias outras divisas municipais da Metrópole. Demonstrando o quanto é inócuo lidar de forma isolada com problemas comuns, principalmente diante de um vírus, que faz questão de lembrar o quanto ela é abstrata, apesar de concreta.

 

Para ajustar a legislação que trata da governança metropolitana, tramita na Assembleia Legislativa projeto de lei incluindo, dentre suas atribuições, o enfrentamento integrado da pandemia. Aprovado e sancionado, emprestará ainda mais segurança jurídica em relação as medidas a serem compartilhadas em defesa da saúde da população da região e contra a propagação, sem controle, do hoje principal inimigo das nossas vidas e atividades. Compartilhar decisões é inadiável, pois continuar agindo cada um por si, só mantém o vírus livre, leve e solto. A conta dessa imprudência respingará em todos. Pode, inclusive, lhes custar votos. Que parece ser a razão de tantas e injustificáveis divergências.

*Vicente Loureiro, arquiteto e urbanista, doutorando em urbanismo na Universidade de Lisboa e autor do Livro Prosa Urbana.