A centopéia mecânica

maio 4, 2021 /

*Vicente Loureiro

 

Aparece todos os dias no comecinho da Av. Abílio Augusto Távora, entre as ruas Ivan Vigné e Amazor Moreira Prisco, no centro de Nova Iguaçu. Mas não é só aqui que ela acontece, há notícias de ocorrência de outras da mesma espécie em várias cidades. Normalmente, tem uns 200 metros de comprimento. Mas tem gente que jura ter visto a “criatura” com mais de 300.

Ela com todo esse tamanho, mete mais raiva do que medo. Anda a passos de cágado apesar de alguns de seus motores terem sei lá quantos cavalos. Mas mesmo com tanta potência acumulada, seu comportamento é majoritariamente dócil. Aguarda com paciência o abastecimento de cada um de seus componentes por minutos a fio e, por vezes, passando até de uma hora. E nesse lento caminhar de 4 em 4 rodas, ela vê seu rabo crescer a ponto de parecer que vai durar para sempre.

Chega a ter alguma graça aquele andar engatado, à frente e atrás, de seus componentes. A diversidade multimarcas e de cores reduz a monotonia da espera. Enquanto os mais impacientes buzinam, os resignados parecem usar o celular como ansiolítico. Se é que isso é possível. Mas uma coisa os une, para além do objetivo comum e do engavetamento em duplo sentido: a indiferença para o que acontece ao redor. Se acham estar no direito de se encher de gás e não estão nem aí para o transtorno que geram, principalmente nas primeiras horas da manhã, quando boa parte da população da cidade passa por ali, tendo que perder tempo a admirar a letargia daquela geringonça meio carro meio gente. Tão possante e inteligente quanto espaçosa e lerda. Um verdadeiro estorvo.

De tão grande e recorrente, sua aparição já atraiu a atenção dos guardas de trânsito, cuja performance, quase teatral e de apitos estridentes, mais parece colaborar com a formação daquela bicha, no sentido duplo, por favor: de fila e animal, enorme e semovente, do que organizar e acelerar a passagem dos retidos por aquela teimosa e sem noção centopéia mecânica. Ou seria “centoroda”?
Nesta cena corriqueira que já se repete em outras horas dos dias e até nos fins de semana, todos perdem. Até mesmo os que configuram a fila, que quanto mais anda mais cresce, pois são, por falta de alternativas comerciais, obrigados a buscar gás (GNV) para abastecimento de seus carros só, e somente só, naquele posto que encabeça a avenida que deveria mudar seu nome para Abílio Augusto Trava e não Távora.

Quem ganha com tamanha disfunção urbana? Por que se deixa tornar rotina essa fila de carros como se fosse normal sua existência cotidiana? É de doer ver ônibus lotados de trabalhadores e trabalhadoras toda manhã atravessar, entre freadas e arrancadas de metro a metro, aquele pedaço de rua, que, a princípio, deveria preferencialmente servir a todos e não funcionar como extensão de uma atividade comercial privada no espaço público, tomando, na maior, o tempo de toda gente que tem apenas aquele caminho para passar. Um inexplicável abuso!

 

*Vicente Loureiro. arquiteto e urbanista, doutorando em urbanismo na Universidade de Lisboa e autor do Livro Prosa Urbana