“Passaram-se 20 anos, mas, para mim, parece que foi ontem.” Luciene Silva, de 58 anos, carrega a dor de ter perdido o filho de 17 anos em um dia que havia transcorrido normalmente, até ser interrompido por uma violência brutal. No dia 31 de março de 2005, um grupo de policiais militares saiu de carro e, durante cerca de duas horas, executou 29 pessoas em Nova Iguaçu e Queimados, na Baixada Fluminense. Apenas uma das vítimas sobreviveu aos ataques. O episódio é tido como a maior chacina do Estado do Rio.
— Raphael saiu para comprar uma peça para a bicicleta. Quando desceu a Via Dutra para voltar para casa, foi assassinado sem nem saber o que estava acontecendo. Assim como Raphael, que tinha uma vida inteira pela frente, outros homens e mulheres foram mortos justamente por quem deveria nos defender — lamenta Luciene.
Banho de sangue
As vítimas foram assassinadas enquanto caminhavam, jogavam fliperama ou simplesmente conversavam em um bar. Em uma só rua, nove pessoas foram executadas, entre elas três adolescentes que, assim como Raphael, não faziam ideia do que estava acontecendo. O banho de sangue promovido pelos policiais naquela noite repercutiu no mundo inteiro.
Renato Azevedo, então com 28 anos, foi morto a tiros ao deixar o lava-jato que mantinha a poucos metros de casa, no bairro Pacaembu, no centro de Queimados.
— Ouvimos um barulho, corremos para ver o que era e percebemos que tinha acontecido algo na loja do meu irmão. Quando chegamos lá, ele já estava sem vida. Só sei que desmaiei na hora. É difícil falar, porque a saudade dói tanto. O tempo para os familiares não passa. É muita tristeza. A gente não vive, apenas sobrevive — diz Silvânia Azevedo, de 46 anos, irmã de Renato.
Ontem, parentes e amigos das vítimas participaram de um missa na Paróquia Sagrada Família, em Nova Iguaçu, para homenagear os mortos e pedir mudanças na política de segurança pública.
O promotor do Ministério Público do Rio Fábio Mendes Muniz, que atuou no caso, lembra como o crime gerou pânico na população da Baixada Fluminense. Segundo ele, o medo era tanto que uma das testemunhas mais importantes do processo, que identificou um dos réus em uma das cenas do crime, desistiu de colaborar com a Justiça e desapareceu.
— As vítimas foram atacadas de forma inesperada e covarde. Havia menores que foram mortos com um disparo só, feito à queima-roupa. A gente imagina que a pessoa ficou tão amedrontada que não conseguiu fugir, e aí eles mataram com um tiro só — relembra Muniz.
De acordo com as investigações, a matança teria acontecido em represália à linha dura imposta pelo então comandante do 15º BPM (Caxias), coronel Paulo César Lopes. Ele estava havia cerca de um ano no batalhão e punido policiais por desvio de conduta, o que teria revoltado a tropa. Dias antes do massacre, oito agentes do mesmo batalhão foram presos, acusados de matar duas pessoas e de atirar a cabeça de uma delas no interior do quartel.
“Inconcebível”
O depoimento de uma testemunha-chave revelou que a insatisfação com o comandante foi o estopim para a explosão de violência. Segundo o relato, meia hora antes do início da ação, dois integrantes do bando de PMs teriam reclamado das mudanças no batalhão em um bar em Nova Iguaçu.
— Imaginar que um grupo de policiais, em um carro, saiu pelas ruas matando pessoas aleatórias é inconcebível. Parece história de ficção. Mas foi isso que aconteceu, foi a realidade — afirma Luciene.
O Ministério Público denunciou 11 PMs pelos crimes. Desse total, cinco foram levados a júri popular. José Augusto Moreira Felipe, Carlos Jorge Carvalho e Júlio César Amaral de Paula foram condenados a 534 anos cada um. Marcos Siqueira Costa recebeu pena de 474 anos, e Fabiano Gonçalves Lopes, de sete.
Quatro policiais foram liberados pela Justiça por falta de provas. Um foi absolvido em decisão de 2009, e outro, que chegou a ser denunciado por formação de quadrilha, morreu em 2006.
O PM Gilmar da Silva Simão foi assassinado com 15 tiros numa emboscada. O caso chamou atenção porque Simão negociava delação premiada e havia prestado depoimentos importantes à Justiça sobre o caso. Ele era apontado pelo Ministério Público como peça-chave na investigação e indicou à polícia uma testemunha que elucidou todo o crime. Simão estava respondendo em liberdade, trabalhava na área administrativa do 3º BPM (Méier) e teria apontado uma possível relação de policiais com a máfia dos caça-níqueis.
Ao ser perguntada sobre a busca por justiça, Luciene conta que se sente “privilegiada” por ter visto os PMs envolvidos no crime serem julgados e condenados.
— Infelizmente, isso é um privilégio, porque a maioria dos casos não é sequer investigada, quanto mais virar processo e ter condenação. Mas a dor continua a mesma. Na verdade, é maior, porque a falta só cresce. Como mãe, fico imaginando o que ele estaria fazendo hoje, se teríamos netos e tudo que a gente não viveu com ele, porque ele foi tirado de nós — afirma ela.
Quatro dos condenados continuam presos. Fabiano Gonçalves Lopes recebeu da Justiça alvará de soltura e está em liberdade desde julho de 2014, por extinção de punibilidade.
Com informações do Extra.