*Luiz Carlos Azedo

Estruturas de poder, palanques compartilhados, recursos financeiros e tempo de televisão fazem toda a diferença, mas também existe o imponderável, como em 2018
A campanha presidencial entrou numa nova fase. A abertura do período das convenções partidárias, nesta segunda-feira, transforma as pré-candidaturas em candidaturas formais e obriga os partidos a fechar suas alianças, escolher os candidatos a vice e armar os palanques estaduais, que acabam tendo muito peso na disputa pela Presidência. Renan Santos, do Missão, foi o primeiro presidenciável a oficializar seu nome, numa convenção antecipada, realizada ontem, ao lado do militar da reserva Aroldo Medina.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) deverão confirmar suas candidaturas nas próximas duas semanas. As convenções podem ser realizadas até 5 de agosto, e os pedidos de registro precisam ser apresentados à Justiça Eleitoral até 15 de agosto. A antecipação da convenção do Missão foi justificada por Renan como uma medida de segurança. Segundo ele, as ameaças atribuídas a organizações criminosas tornaram necessária a proteção da Polícia Federal assegurada aos candidatos.
O Missão manterá, porém, o evento marcado para 1º de agosto, em São Paulo, quando pretende apresentar o chamado Livro Amarelo, documento que reúne as principais propostas de seu programa. Ligado à fundação do Movimento Brasil Livre, Renan procura ocupar o espaço de uma direita liberal, antissistema e não subordinada ao bolsonarismo, com ênfase no combate ao crime organizado, no endurecimento da legislação penal e numa agenda econômica radicalmente liberal.
Mesmo sem estrutura comparável à dos grandes partidos, Renan entra na disputa com uma legenda própria, sem coligações e com um discurso voltado principalmente aos eleitores jovens, urbanos e conectados às redes sociais. Sua candidatura ajuda a demonstrar que o campo da direita não chegará unificado ao primeiro turno. O mais prejudicado no primeiro turno é Flávio Bolsonaro, que perde votos em São Paulo, apesar do apoio do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). Seu desafio será transformar a visibilidade conquistada pelo MBL em capilaridade nacional.
Leia também: Convenções reacendem debate sobre busca de chapas mais representativas
Num país em que as campanhas presidenciais dependem de palanques estaduais, tempo de propaganda, financiamento, candidaturas proporcionais e presença organizada nos municípios, a existência de estruturas de poder, palanques compartilhados, recursos financeiros e tempo de televisão faz toda a diferença, embora exista o imponderável, como aconteceu em 2018, quando Lula foi preso e um desacreditado Jair Bolsonaro atropelou os concorrentes e se elegeu presidente.
Escolha de vices
Lula e Caiado já resolveram a composição de suas chapas. O presidente repetirá com Geraldo Alckmin, do PSB, a dobradinha vitoriosa de 2022. A escolha preserva uma aliança que nasceu como símbolo da frente democrática contra Jair Bolsonaro e mantém ao lado de Lula uma liderança de perfil moderado, com trânsito no empresariado, na região Sudeste e em setores católicos. Alckmin também representa uma ponte com parcelas do eleitorado de centro que não se identificam com o PT. Entretanto, essa capacidade de atração foi desgastada pela polarização e pelas dificuldades econômicas e políticas enfrentadas pelo governo.
Leia mais: Lula recebe apoio do PDT para as eleições e critica democracia “pós-golpe”
Ronaldo Caiado, por sua vez, formou uma chapa puro-sangue do PSD com Gilberto Kassab, ex-prefeito de São Paulo e presidente nacional da legenda. A composição é uma demonstração de força partidária, mas envolve riscos. Kassab possui grande habilidade de articulação e comanda uma sigla com governadores, senadores, prefeitos e bancadas expressivas, porém muitos diretórios do PSD mantêm relações com o governo federal ou interesses regionais que podem dificultar um alinhamento automático. Caiado corre risco de ser “cristianizado”. Seu desafio é converter a capilaridade do partido numa candidatura nacional competitiva e ultrapassar a fronteira de sua base mais consolidada, o agronegócio e o Centro-Oeste. É outro que atrapalha Flávio Bolsonaro.
As maiores indefinições estão nas chapas de Flávio Bolsonaro e Romeu Zema. Flávio busca uma mulher para a vice, numa tentativa de reduzir sua desvantagem entre o eleitorado feminino e ampliar a coalizão partidária. O nome mais natural seria o de Michele Bolsonaro, mas os dois estão rompidos. Há os nomes da ex-presidente da Caixa Daniella Marques (Republicanos) e da deputada Simone Marquetto (PP). A escolha depende do Republicanos e da federação formada por União Brasil e Progressistas. Por ora, essas alianças subiram no telhado. Não basta preservar o núcleo bolsonarista, Flávio precisa atrair partidos de centro e setores conservadores que ainda resistem à sua candidatura.
Zema enfrenta problema semelhante. O ex-governador mineiro procura um vice capaz de nacionalizar sua candidatura e abrir portas em outras legendas. Chegou a mencionar Michelle Bolsonaro, que recusou publicamente a hipótese, enquanto o empresário Geraldo Rufino, do Podemos, perdeu força por causa da possibilidade de disputar o Senado em São Paulo. A indefinição revela que a escolha do vice, mais do que uma decisão pessoal, tornou-se instrumento de negociação de alianças, palanques e recursos de campanha. Lobo solitário, Zema faz um discurso antissistema, com foco na segurança, nas privatizações e no combate à corrupção.
Vale a pena ler de novo:
O Brasil entre soberania, democracia e seus velhos problemas sociais
À sombra de Monroe, tarifaço é declaração de guerra comercial ao Brasil
Nas entrelinhas: todas as colunas diariamente no Blog do Azedo
*Luiz Carlos Azedo, jornalista, é colunista do Correio Braziliense.








