O transporte público rodoviário, principal meio de deslocamento da população fluminense, tem cobrado um custo alto dos passageiros — e não apenas no valor da passagem. A nova edição do relatório De Olho no Transporte (DOT 5), produzido pela Casa Fluminense, revela que os moradores da Região Metropolitana do Rio de Janeiro convivem com as tarifas mais caras do país, um ar cada vez mais poluído e rotinas de deslocamento que chegam a ultrapassar 50 horas semanais. O estudo foi apresentado hoje em Belém, no painel da COP30 “Monitoramento cidadão para cidades respiráveis: a transição energética para ônibus mais acessíveis, limpos e seguros na RMRJ”, e será discutido em detalhes no próximo dia 13 (quinta-feira), na Casa da Cidade, também em Belém, a partir das 18h. O evento é aberto ao público, e o documento pode ser baixado gratuitamente no site oficial da instituição.
O DOT 5 fez um raio-X inédito da mobilidade urbana na região metropolitana do Rio de Janeiro. Ele monitorou a rotina real de quatro passageiros — uma estudante, uma diarista, uma mãe solo e um motorista de ônibus — e cruzou seus trajetos com dados de poluição atmosférica via satélite. O resultado é alarmante: 19 dos 22 municípios da metrópole estão em área de risco para a saúde devido à concentração de material particulado fino (MP₂,₅), de acordo com a análise do relatório feito com base no Painel de Monitoramento da Qualidade do Ar (VIGIAR). Em média, os deslocamentos passam por regiões com até 0,027 mol/m² de monóxido de carbono (CO) — níveis associados a problemas respiratórios e cardiovasculares.
Além do impacto ambiental, o custo do transporte pesa diretamente no bolso e no tempo dos trabalhadores. A pesquisa mostra que moradores da Baixada Fluminense gastam, em média, R$ 298,00 por mês e 20 horas semanais apenas com deslocamentos para estudo ou trabalho. Em cidades como Queimados e Nova Iguaçu, mais de 10% da população leva mais de duas horas por trajeto, o maior tempo médio do país.
“O transporte é o direito que dá acesso a todos os outros direitos. Quando uma pessoa precisa escolher entre pagar a passagem ou comer, há uma violação constitucional”, afirma Luize Sampaio, coordenadora de informação da Casa Fluminense. Em 2025, completam-se dez anos desde que o transporte público foi reconhecido como direito social pela Constituição, mas a realidade mostra que esse direito ainda não chega a todos.
Outro dado preocupante revelado pelo relatório é a relação entre transporte e violência de gênero: 1 a cada 11 casos de importunação sexual registrados no estado ocorre dentro de ônibus, trens ou metrôs, e 94% das vítimas são mulheres, majoritariamente negras.
O documento também aponta que a falta de arborização agrava o calor e a poluição: cerca de 3,17 milhões de domicílios estão em áreas de ilhas de calor e 36% das casas não têm nenhuma árvore no entorno. A ausência de verde reforça as desigualdades territoriais e climáticas que atingem de forma mais severa a Baixada e o Leste Fluminense.
Para enfrentar o problema, a Casa Fluminense propõe um novo olhar para a mobilidade urbana, com foco no conceito “triplo zero” — zero emissão, zero tarifa e zero mortes. A organização defende a ampliação da tarifa zero, já implementada em nove municípios da região, e a aceleração da transição energética no transporte público.
“A mudança já começou, mas precisa sair do papel e chegar às periferias. A frota limpa e a tarifa zero são caminhos urgentes para cidades mais justas, resilientes e cuidadoras”, conclui Luize.
