*Luiz Carlos Azedo

Senador aposta que o colapso da política externa poderá ser atribuído a Lula e convertido em votos para a oposição, ao provocar crise econômica
Flávio Bolsonaro transformou a convenção que oficializou sua candidatura à Presidência numa tribuna para líderes estrangeiros atacarem o governo brasileiro e o Supremo Tribunal Federal (STF). Dobrou uma aposta de alto risco na crise externa. O candidato do PL se apresenta como representante nacional de uma onda conservadora internacional, mas fomenta a deterioração das relações diplomáticas e comerciais do Brasil com Estados Unidos, Argentina e Israel.
A operação pode até mobilizar o eleitorado bolsonarista mais radical, porém ameaça interesses econômicos do país e expõe Flávio à acusação de colocar a estratégia eleitoral de sua família acima do interesse nacional. Convidado de honra da convenção do PL, em São Paulo, o presidente argentino Javier Milei chamou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de “ladrão” e “presidiário” e dirigiu ao ministro Alexandre de Moraes uma ofensa incompatível com o cargo que ocupa: “lixo careca”.
Foi um discurso truculento, realizado num evento partidário brasileiro. Por isso, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, classificou a manifestação como interferência nos assuntos internos do Brasil e uma agressão ao Executivo, ao Judiciário, ao Congresso e ao povo brasileiro. Lula tentou tirar por menos: “Eu? Quem é esse cara?”, mas a reação de alguns ministros foi no mesmo diapasão. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, abandonou o estilo diplomático e chamou Milei de “palhaço”.
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Essa escalada verbal não interessa aos dois países. Brasil e Argentina construíram, desde o governo José Sarney, uma parceria que permitiu superar a antiga rivalidade estratégica, criar o Mercosul e integrar cadeias produtivas fundamentais, principalmente na indústria automobilística. A Argentina é o terceiro maior destino das exportações brasileiras. Pelos dados apresentados, comprou US$ 9,12 bilhões em produtos do Brasil, atrás apenas da China, com US$ 47,68 bilhões, e dos Estados Unidos, com US$ 20,02 bilhões.
A pauta destinada à China é concentrada em commodities, sobretudo soja, petróleo e minério de ferro. Estados Unidos e Argentina absorvem uma parcela proporcionalmente maior de bens industrializados, de maior valor agregado e com capacidade de gerar empregos qualificados no Brasil. Automóveis, autopeças, máquinas, equipamentos elétricos, produtos químicos, aeronaves, combustíveis processados e outros manufaturados ocupam espaço relevante nas vendas aos mercados norte-americano e argentino. A retração das exportações pode reduzir a produção industrial, interromper cadeias de fornecedores, adiar investimentos, afetar a arrecadação e eliminar empregos
Eixo de alianças
A presença de Milei na convenção não foi um acaso, reflete o eixo das alianças internacionais de Flávio Bolsonaro, ao lado da mensagem de Benjamin Netanyahu exibida no evento e da atuação do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio. As relações entre Brasil e Israel chegaram ao nível mais baixo desde 1949. Os dois países deixaram suas representações sob encarregados de negócios, sem embaixadores. Ao gravar uma mensagem para a convenção do PL, o primeiro-ministro israelense ingressou diretamente no ambiente eleitoral brasileiro e reforçou a identificação do bolsonarismo com seu governo.
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Forma-se uma conexão internacional de extrema direita: Milei representa o ultraliberalismo econômico e a guerra cultural contra a esquerda; Netanyahu é um senhor da guerra marcado pela prolongada ofensiva militar em Gaza; e Rubio executa uma política externa voltada para conter a expansão chinesa e alinhar governos da América do Sul às prioridades de Washington.
Com os Estados Unidos, o problema é economicamente mais grave. A imposição de tarifas pelo governo Donald Trump já interferiu na eleição brasileira e atingiu setores exportadores. Rubio tornou-se um dos principais formuladores dessa pressão, associando medidas diplomáticas, comerciais e políticas a críticas ao Supremo e aos processos contra Jair Bolsonaro.
Flávio procura transformar essa ofensiva numa prova de que Lula isolou o país. O efeito pode ser aumentar as tensões com dois dos três maiores compradores dos produtos brasileiros, ampliar a insegurança dos empresários e criar dificuldades para os setores industriais. Uma ruptura mais profunda elevaria custos, pressionaria preços e prejudicaria a renda e o emprego.
*Luiz Carlos Azedo, jornalista, é colunista do Correio Braziliense.
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