* Chico Alencar

Hoje a Igreja Católica e outras denominações históricas celebram Pedro e Paulo, duas figuras centrais nas origens do cristianismo.
Ambos viveram nos primeiros 65 anos do século I. São semelhantes na fé comum, arrebatadora, e na perseguição e martírio sofridos no final de suas vidas – com morte de cruz, o primeiro, e degola, o segundo. Em Roma, quase ao mesmo tempo. O Império de Nero não os suportava.
No mais, diferenças que se complementavam. Pedro foi amigo e discípulo de Jesus. Paulo não o conheceu pessoalmente, mas sua identificação amorosa com Cristo era tanta que afirmou: “Já não sou eu quem vivo, mas Cristo que vive em mim”.
Pedro, pescador, era pedra bruta tornada alicerce, fundamento. Que, amedrontado, nega Jesus e depois “chora amargamente”. Humaníssimo!
Entre tropeços e profissão de fé no Deus Vivo, Pedro recebe do Cristo a missão de construir uma igreja despojada, sobre a qual “as forças da morte” não prevalecerão (morte é riqueza, poder de mando, falsidade).
Pedro como ponte (daí pontífice) entre o divino e o terreno, o imanente e o transcendente! Daí ser representado sempre com uma chave na mão. São Pedro trocou as redes de pescar pelo ofício de abrir as portas do céu para tod@s, sem exceção!
Paulo, antes soldado perseguidor de cristãos, converte-se no caminho de Damasco e torna-se persistente animador das primeiras comunidades, com suas treze cartas: daí ser desenhado sempre com um livro na mão. Trocou a espada pela escrita!
Suas epístolas têm a marca do seu tempo patriarcal (“mulheres, sejam obedientes a seus maridos”) mas também o espírito revolucionário da crença autêntica: “somos tidos como tristes, mas estamos sempre alegres; pobres, mas enriquecimento a muitos; nada tendo, mas possuindo tudo!” (2 Cor 6, 10).
Paulo, judeu convertido, mestre e fariseu, conhecedor da filosofia grega – língua que falava e na qual escrevia – levou a fé cristã para além da Palestina. São Paulo propagou! (Continua nos comentários 👇)
O admirável papa Francisco (1936-2025) definiu bem os dois fundadores: “Pedro não é um super-homem: é um como cada um ou uma de nós, que, na sua imperfeição, diz ‘sim’ a Jesus com generosidade”.
“Em Paulo, a vocação para ser Apóstolo funda-se não nos seus méritos humanos (ele se considera ‘último’ e ‘indigno’), mas na bondade infinita de Deus”.
Somos todos um pouco Pedro e um tanto Paulo (olha a responsa de quem tem esses nomes!). Também somos Maria e Marta, Petrias e Paulas – o feminino da condição humana que se afirma e se impõe, contra todas as seculares opressões.
Somos todos/as chamados a poder dizer com Paulo, no fim da estrada (que, à luz da fé, nunca tem fim):
“Combati o bom combate, terminei minha jornada, guardei a fé!” (2 Tm 4, 7).
Pela nossa prática de vida, conseguiremos?
*Chico Alencar, professor, historiador, deputado federal (PSOL-RJ).








