Novo cenário mundial pode complicar ainda mais a reeleição de Lula

*Luiz Carlos Azedo

A mudança no cenário internacional abriu um flanco diplomático delicado. Nos EUA, discute-se a possibilidade de classificar o PCC e o CV como organizações terroristas

Até poucas semanas atrás, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva parecia voar em céu de brigadeiro no cenário internacional. A política externa brasileira recuperou protagonismo, a economia apresentava crescimento razoável e o governo apostava na estabilidade de suas relações com os Estados Unidos para sustentar sua narrativa eleitoral de continuidade. A guerra entre Estados Unidos e Irã, porém, alterou abruptamente esse quadro. O bloqueio do Estreito de Ormuz e a escalada militar no Oriente Médio introduziram um fator de incerteza geopolítica que começa a repercutir diretamente na política interna brasileira e pode complicar o projeto de reeleição de Lula.

A guerra no Golfo Pérsico elevou rapidamente os preços do petróleo no mercado internacional, que chegou a ultrapassar a casa dos US$ 100 por barril, patamar significativamente superior à média de cerca de US$ 70 registrada antes do conflito. O Estreito de Ormuz, cuja circulação foi afetada pela guerra, é um dos principais gargalos do comércio mundial de energia, por onde passa aproximadamente um quarto de todo o petróleo transportado globalmente. Embora as cotações tenham recuado após declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sugerindo que o conflito poderia estar próximo do fim, os preços continuam elevados e sujeitos a forte volatilidade. Essa instabilidade já é suficiente para alterar expectativas econômicas e produzir efeitos políticos.

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No Brasil, os primeiros reflexos começaram a aparecer nos combustíveis. Dados recentes indicam que a gasolina e o diesel tiveram pequenas elevações no início de março. Ainda que os aumentos sejam moderados, eles sinalizam o início de uma tendência potencialmente mais forte caso a guerra se prolongue. O problema é que o impacto do petróleo na economia brasileira não ocorre apenas no preço da gasolina. O diesel, base do transporte rodoviário, é um componente central da cadeia logística nacional e afeta diretamente o custo do frete, dos alimentos e da distribuição de mercadorias. A turbulência internacional também traz riscos macroeconômicos mais amplos: desacelerar o crescimento global e elevar a inflação em diversas economias.

É uma armadilha econômica para o governo. O Brasil é grande produtor e exportador de petróleo, mas continua dependente da importação de derivados, especialmente do diesel. Isso significa que, em um cenário de preços internacionais elevados, a pressão inflacionária acaba chegando ao consumidor brasileiro. A Petrobras dispõe hoje de alguma margem de manobra para suavizar reajustes porque abandonou, em 2023, a política de paridade plena com os preços internacionais. Ainda assim, essa capacidade é limitada. Se o barril permanecer acima de US$ 100 por um período prolongado, o repasse aos consumidores torna-se praticamente inevitável.

Flanco diplomático

Nas eleições, o comportamento da inflação costuma ser um dos fatores mais decisivos para o humor do eleitorado. O governo vinha apostando no argumento da recuperação econômica e da melhoria gradual da renda como base de sustentação para a campanha de reeleição. Um choque inflacionário pode comprometer essa narrativa. Além da inflação, existe um risco político adicional: a pressão do setor de transportes. A elevação do diesel historicamente provoca reações entre caminhoneiros, grupo que demonstrou enorme capacidade de mobilização desde a greve nacional de 2018. Uma crise logística poderia rapidamente se transformar em munição política para a oposição.

A mudança no cenário internacional também abriu um flanco diplomático delicado. Nos Estados Unidos, setores do governo discutem a possibilidade de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. A proposta, defendida por integrantes do Departamento de Defesa americano, baseia-se na tese de que essas facções mantêm conexões com redes transnacionais, inclusive no Oriente Médio. Caso a medida avance, suas implicações políticas serão profundas.

A classificação como organizações terroristas ampliaria o alcance das sanções financeiras e da cooperação internacional contra esses grupos. Mais do que isso, colocaria o Brasil no centro de uma narrativa internacional sobre crime organizado transnacional e fragilidade institucional. Em plena disputa eleitoral, esse tipo de enquadramento poderia alimentar o discurso de adversários do governo de que o país perdeu capacidade de controle sobre o crime organizado.

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O Itamaraty e o Ministério da Justiça atuam nos bastidores para evitar que a decisão seja tomada antes de um eventual encontro entre Lula e Trump. Outro episódio que ilustra o impacto da nova conjuntura internacional ocorreu na política regional. Lula decidiu cancelar sua participação na posse do novo presidente do Chile, José Antonio Kast, líder conservador alinhado à direita latino-americana. A decisão evita um possível encontro público com o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência e principal adversário do petista.

*Luiz Carlos Azedo, jornalista, é colunista do Correio Braziliense.

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