Os desdobramentos da Guerra no Irã e as dúvidas sobre quanto tempo o conflito deve durar passaram a mexer com as perspectivas para a economia do Brasil. O elemento central nesse tabuleiro é o petróleo, cuja disparada nos preços impacta a inflação e, consequentemente, as expectativas sobre a taxa de juros.
No começo do ano, o debate entre agentes do mercado financeiro era sobre o tamanho e a velocidade dos cortes que o Banco Central faria na Selic a partir da reunião de 18 de março.
Agora, um novo elemento passa a compor as análises: o Oriente Médio. Enquanto o mercado aumenta as expectativas de juros para o fim do ano, a projeção mais imediata se divide. Para a próxima reunião, há economistas que mantêm a expectativa de uma queda de 0,5 ponto percentual, enquanto outros trabalham com a possibilidade de o BC manter a taxa básica de juros em 15% por mais uma reunião.
O Oriente Médio está em guerra desde que os Estados Unidos e Israel bombardearam o Irã no fim de fevereiro. De lá para cá, os ataques se espalharam por territórios vizinhos e passaram a dar sinais de que a região —estratégica para o comércio de petróleo do mundo— poderia estar diante de um gargalo em formação.
Nesta segunda (9), o petróleo chegou a ficar próximo de US$ 120 por barril, com países cogitando cortar a produção depois que o Irã ameaçou incendiar navios que passassem pelo estreito de Hormuz. Mais tarde, a cotação caiu para menos de US$ 90 após o presidente americano, Donald Trump, dizer que o conflito estaria praticamente encerrado.
Apesar do alívio, especialistas em energia avaliam que a guerra no Irã já causou a maior disrupção na produção de petróleo da história e que os riscos de um efeito cascata na economia global dependem, basicamente, da duração do conflito.

Os impactos, porém, já são visíveis. O preço das passagens aéreas pelo mundo disparou com a instabilidade do petróleo. No Brasil, distribuidoras de combustíveis começaram a repassar a alta de custo aos clientes.
A “porta de entrada” da alta do barril de petróleo no IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) é pela gasolina, que, apesar de não ser um combustível estratégico, pesa na inflação. Mais de 5% do orçamento familiar, em média, é gasto com isso. Portanto, a cada 1% de alta da gasolina, o IPCA sobe 0,05%.
No entanto, o maior problema não é esse, mas a difusão, afirma André Braz, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor da FGV (Fundação Getulio Vargas). Segundo ele, o preço do petróleo influencia diversos itens da economia: na agricultura, com defensivos e fertilizantes; na indústria plástica, com garrafas PET e outras embalagens; no setor energético, com as termoquímicas.
Toda a cadeia de produção que usa derivados de petróleo já começa a se preparar quando o preço do barril se sustenta no patamar de US$ 100. “É um efeito lento, mas vai acontecer”, diz.
Adriana Dupita, economista-chefe adjunta para mercados emergentes da Bloomberg, cita um estudo de 2022 do Banco Central que descreve que uma alta de 10% nos preços de petróleo em reais, se for seguida de mudança de mesma magnitude no etanol, aumenta a inflação em 0,4%.
Guilherme Moreira, coordenador do IPC (Índice de Preços ao Consumidor) da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), diz que não há uma regra para saber quanto que uma alta do petróleo vai impactar a inflação.
Isso depende da intensidade do aumento, do tempo que durar essa tendência nos preços internacionais e de fatores internos, como taxa de juros reais. Segundo ele, a estratégia de preços da Petrobras é evitar volatilidade para o consumidor.
O último dado de inflação divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) é referente a janeiro. Naquele mês, o IPCA ficou em 0,33%, levando o índice a 4,44% em 12 meses.
O BC persegue a meta de inflação cujo centro é de 3% no acumulado de 12 meses. O intervalo de tolerância é de 1,5 ponto percentual para menos ou para mais, o que significa piso de 1,5% e teto de 4,5%. Ou seja, atualmente, a inflação está dentro da meta, mas mais próxima do teto.
O atual patamar do IPCA é um dos motivos que levaram economistas a rever suas estimativas para o corte de juros diante do cenário da guerra no Irã. Sergio Vale, da MB Associados, avalia que a reação do BC deveria ser de cautela e manutenção dos juros no patamar atual de 15%.
“O principal problema é um choque [do petróleo] desses num momento de inflação ainda elevada. Seria uma situação bem diferente com o IPCA a 3%. Mas com ele em 4,5%, o risco de impacto negativo fica ainda mais acentuado. Em tese, o impacto poderia ser de até 0,5 pp no IPCA, levando o índice a 5% em 12 meses”, diz.
Segundo ele, o BC pode esperar uma reunião a mais para entender a extensão da crise e como a Petrobras reagirá. Mas o problema, na avaliação dele, é justamente a inflação estar próxima ao teto da meta.
“Parece ser difícil defender a queda agora dado que já há uma elevada defasagem dos preços de combustíveis, que vão ter que fazer com que a Petrobras tenha que ser mais rápida na resposta”, afirma.
Para Vale, há chance de que o Copom faça um corte de 0,25 ponto percentual —menor do que o 0,5 ponto percentual que vinha sendo esperado por parte dos analistas antes da guerra. “Se não mexer muito nas expectativas, o BC poderia abrir espaço para uma queda de 0,25. O problema é que tem chance grande de essa crise se estender para além de março e o BC ter que voltar a ser conservador na reunião seguinte.”

O conflito no Irã também fez o mercado financeiro aumentar a previsão de juros para 2026. Segundo o boletim Focus desta segunda, analistas esperam que a Selic fique em 12,13% no fim do ano —uma alta de 0,13 ponto percentual em relação ao último boletim, que foi publicado antes da guerra.
Mesmo com a mudança na projeção de juros, a expectativa para a inflação se manteve em 3,91% para dezembro, segundo o Focus.
Luis Felipe Vital, estrategista-chefe de macro e dívida pública da Warren Investimentos, diz que o mercado financeiro chegou a considerar provável um ritmo de cortes na Selic mais acentuado em 2026. Mas, segundo ele, essa percepção começou a ser questionada após a divulgação de um IPCA-15 acima das estimativas e o início do conflito no Oriente Médio.
Apesar do cenário mais adverso, Vital diz que a Selic ainda está em patamar significativamente contracionista, o que abre espaço para algum ajuste mesmo em um ambiente de maior incerteza. Por isso, projeta que o BC deve manter a redução de 0,5 pp na reunião de março.
“Embora existam riscos inflacionários à frente, ainda há espaço para que o Banco Central inicie o processo de flexibilização. Esse movimento poderia ser interrompido posteriormente, caso o cenário se deteriore ou caso o comitê julgue necessário observar com mais cautela os efeitos da política monetária sobre a economia”, diz.
Avaliação similar é feita por Dupita, da Bloomberg. Para ela, o conflito atual não muda a previsão de um corte de 0,5 ponto percentual na Selic.
Ela trata a alta do barril como um choque exógeno e, para a especialista, os bancos centrais não devem reagir a isso imediatamente. “Uma coisa é aumento do preço da gasolina, a outra é o preço do corte de cabelo subir porque o barbeiro gasta mais para ir trabalhar.”
Já em relação ao PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil, as análises apontam para um impacto neutro da guerra. Isso porque, apesar de um efeito inflacionário, as petroleiras nacionais podem se beneficiar com a alta nos preços. Além disso, mercados emergentes, como o brasileiro, costumam ser destino de recursos em momentos de choques e crises globais.
A mediana das análises do boletim Focus aponta para uma alta do PIB de 1,82% neste ano. Já o Ministério da Fazenda estima um salto de 2,3%.
Com informações da Folha de São Paulo








