Buscando esquecer a 10ª colocação de 2025, quando apresentou o enredo “Quem tem medo de Xica Manicongo?”, a Paraíso de Tuiuti abre o último dia de desfiles nesta terça-feira (17-02) na Marquês da Sapucaí. Com o enredo “Lonã Ifá Lucumí”, do carnavalesco Jack Vasconcelos, a azul e amarelo de São Cristóvão contará a história da tradição de Ifá, sistema filosófico e oracular do povo iorubá, atravessou séculos, oceanos e processos de resistência até se consolidar nas Américas.
Com um samba encomendado aos autores Claudio Russo, Gustavo Clarão e Luiz Antonio Simas, a Tuiuti, que tem como destaque a rainha de bateria Mayara Lima, acredita na força da comunidade para se manter no Grupo Especial. A escola subiu em 2016 e tem conseguido permanecer no Grupo Especial, onde chegou ser vice-campeã em 2018 com o enredo “Meu Deus, Meu Deus, está extinta a escravidão”, de Jack Vasconcelos. O samba foi assinado por Cláudio Russo, Moacyr Luz, Dona Zezé, Aníbal e Jurandir.
Amigo apresentou tema ao carnavalesco

Em entrevista ao site “Carnavalesco”, logo assim que anunciou o enredo, em abril do ano passado, Jack Vasconcelos destacou que um amigo o apresentou a história. “O enredo se chama ‘Lonã Ifá Lukumi’, a gente vai falar sobre o Ifá Cubano e como ele chega no Brasil. Ele foi apresentado a mim pelo um grande amigo que eu tenho, se chama Leandro Azevedo…Nós trabalhamos juntos durante muitos anos. E me apresentou o Ifá Lukumi, que eu fiquei muito encantado com a história e com o rito de forma geral. Isso me levou para estudar, me levou para participar. Fiquei muito encantado com tudo e achei que era a cara da escola e eu trouxe para o Thor (presidente da Tuiuti). Ele quis logo de cara, também se encantou com o tema”, destacou Jack ao site.
Obatalá teria moldado o 1º ser humano
Na tradição, o primeiro ser humano teria sido moldado por Obatalá, recebendo o sopro vital (Emi) e o Orí, princípio do destino individual. Orunmila, considerado o senhor da sabedoria e da adivinhação, tornou-se o porta-voz divino responsável por guiar os caminhos humanos na Terra (Ayiê) em conexão com o mundo espiritual (Orún).
O conhecimento sagrado foi sistematizado na cidade de Ilé–Ifé, berço civilizatório iorubá, e difundido pelo antigo Império de Oyó. Sacerdotes conhecidos como babalaôs passaram a interpretar os Odús — signos revelados por meio do jogo do Opelê sobre o tabuleiro Oponifá — preservando ensinamentos transmitidos por gerações.

Com o tráfico transatlântico de africanos escravizados, a tradição de Ifá cruzou o oceano e chegou ao Caribe. Em Cuba, especialmente na província de Matanzas, formou-se a nação Lucumí, identidade construída pelos iorubás escravizados. A resistência também marcou esse período: a iorubá Carlota Lucumí liderou, em 1843, a Insurreição do Engenho Triunvirato contra o regime colonial espanhol.
Associação de orixás a santos católicos

O Ifá cubano ganhou características próprias a partir do trabalho de sacerdotes como Remígio Herrera, conhecido como Adechina, responsável por estruturar a Regla de Ifá na ilha. Para sobreviver à perseguição religiosa, os iorubás associaram seus orixás a santos católicos, dando origem à Santería (Regla de Ocha), mantendo Ifá como centro oracular.
Ao longo do século XX, a tradição se expandiu e fortaleceu sua presença tanto em Cuba quanto em outros países da diáspora. No Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, o Ifá Lucumí consolidou-se por meio da atuação de sacerdotes iniciados na linhagem cubana, ampliando comunidades dedicadas ao culto de Orunmila.
Mais do que um sistema divinatório, Ifá permanece como herança espiritual, filosófica e cultural da diáspora africana, defendendo valores como equilíbrio, respeito, ancestralidade e responsabilidade com o próprio destino.
Cláudio Russo e Luiz Simas explicam como surgiu o samba









