“o importante não é ser a primeira, o importante é você abrir caminhos”.

ANA CRISTINA ROSA
Ana Cristina Rosa é jornalista formada pela PUC-RS e colunista da Folha de S.Paulo desde 2020. Especialista em Comunicação Pública e atua há mais de 20 anos no Poder Judiciário. Coordenou a comunicação do TSE nas eleições de 2018, sendo reconhecida pelo projeto “TSE Contra Fake News”. Em 2024, recebeu o prêmio Top Mega Brasil como melhor executiva de comunicação do Centro-Oeste. Atualmente, chefia a comunicação do CJF e integra o Conselho Consultivo do Instituto Palavra Aberta.
É irônico que a Academia Brasileira de Letras (ABL) – instituição que teve o jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo Machado de Assis (1839/1908), um homem negro, como principal articulador de sua fundação e seu primeiro presidente (cargo que ocupou por dez anos) – tenha levado mais de um século para contemplar a representatividade de gênero e raça em seus quadros. Foram necessários 128 anos para que uma mulher afrodescendente fosse eleita para integrar o quadro de imortais da ABL. No último dia 10, a escritora, dramaturga e roteirista Ana Maria Gonçalves foi eleita a primeira mulher negra imortal da Academia.
A vitória foi acachapante. Ana Maria conquistou 30 dos 31 votos, que foram disputados por outros 12 concorrentes: Eliane Potiguara, Ruy Lobo, Wander Lourenço de Oliveira, José Antônio Hartmann, Remilson Candeia, João Calazans Filho, Célia Prado, Denilson Marques da Silva, Gilmar Cardoso, Roberto Numeriano, Aurea Domenech e Martinho de Melo. Segundo o presidente da ABL, Merval Pereira, Ana Maria é uma das maiores escritoras brasileiras dos últimos anos. Ela irá suceder o gramático e filólogo Evanildo Bechara, que morreu em maio deste ano, na cadeira de número 33. Aos 54 anos, é também a mais nova entre os imortais.
“O livro Um Defeito de Cor foi considerado o mais importante da literatura brasileira dos últimos 25 anos. Só por isso, merece entrar para a ABL”, disse Merval Pereira, presidente da ABL, em publicação no portal da instituição na internet. “Além disso, é uma mulher negra, e a ABL está empenhada em aumentar sua representatividade entre seus pares. Ana Maria terá a função de demonstrar que a ABL está sempre querendo aumentar sua representatividade de sexo, cor, e qualquer tipo que represente a cultura brasileira. Queremos ser reconhecidos como uma instituição cultural que represente o Brasil, a diversidade brasileira.”
Uma mudança de rumo louvável. Durante anos, em regra, os acadêmicos eram sempre homens brancos. Gênero e raça simplesmente não eram questões consideradas pela ABL sob o argumento da neutralidade. Até a década de 1970, a instituição, também chamada Casa de Machado de Assis, não aceitava mulheres entre seus membros. Rachel de Queiroz (1910-2003) foi a primeira: em 1977, disputou a cadeira 5 com Pontes de Miranda (1892-1979) e elegeu-se por 23 votos a 15. Depois dela, apenas 12 mulheres foram eleitas para integrar a ABL ao longo de quase meio século. Com a chegada de Ana Maria, a composição atual da ABL passará a contar com cinco mulheres e três acadêmicos negros (os outros dois são Domício Proença Filho, eleito em 2006, e Gilberto Gil, eleito em 2021).
Ana Maria Gonçalves nasceu em Minas Gerais, na cidade de Ibiá, em novembro de 1970. A paixão pela leitura foi cultivada desde a infância e, na adolescência, começou a escrever contos e poemas. O romance histórico Um Defeito de Cor, lançado em 2006, é tido como um divisor de águas na literatura negra nacional por representar um marco no reconhecimento dos efeitos e das consequências da escravização na constituição da identidade nacional do Brasil.
O livro já vendeu 180 mil exemplares. Serviu de inspiração para a montagem de uma exposição de arte realizada em 2022 no Museu de Arte do Rio de Janeiro (MAR), com a participação de mais de 100 artistas brasileiros e africanos, que reinterpretaram o romance por meio de 400 obras – entre pinturas, desenhos, esculturas, vídeos e instalações. Do Rio de Janeiro, a exposição foi levada para Salvador, no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (MUNCAB) e para São Paulo, no SESC Pinheiros.
Em 2024, a obra inspirou o enredo da escola de samba carioca Portela, fato que catapultou as vendas do livro na Amazon (um crescimento de 3.300% em dois dias). Um Defeito de Cor narra a trajetória de Kehinde, uma menina negra nascida no Reino de Daomé (atual Benin), na África, em 1810. Sequestrada, é trazida para o Brasil como escravizada, desembarcando na Bahia, na Ilha de Itaparica. A história é inspirada em Luiza Mahin, líder da Revolta dos Malês – rebelião de escravizados em 1835, na Bahia, e mãe do intelectual, advogado e abolicionista Luiz Gama. A primeira edição do romance de mais de 950 páginas, que levou cinco anos para ser finalizado, foi publicada em 2006.
Ana Maria Gonçalves já publicou contos em Portugal, Itália e nos EUA, onde também morou por oito anos e ministrou cursos e palestras sobre questões raciais. Foi escritora residente em universidades como Tulane (New Orleans, LO), Stanford (Palo Alto, CA) e Middlebury (Middlebury, Vermont). Foi condecorada pelo governo brasileiro com a comenda da ordem de Rio Branco, em 2013, por sua atuação na luta antirracista. Após voltar para o Brasil, em 2014, morou em Salvador e São Paulo, antes de fixar residência no Rio de Janeiro. É tradutora, conferencista, roteirista, presença nos debates sobre racismo estrutural, identidade negra e reparação histórica.
Ainda não há previsão de quando será a cerimônia de posse de Ana Maria na ABL. A expectativa é que, como membro da ABL, ela contribua para fortalecer a afro-literatura brasileira. Como disse a escritora Conceição Evaristo, a primeira mulher negra a disputar uma das 40 cadeiras da ABL, sobre a própria candidatura, em 2018, “o importante não é ser a primeira, o importante é você abrir caminhos”.






