Dom Gílson Andrade: Padres para a esperança do mundo

agosto 2, 2020 /

 

*Dom Gílson Andrade

 

Nada mais iniciar o mês de agosto no dia 4, que para a Igreja católica no Brasil é o mês das vocações, a liturgia nos oferece celebrar a memória de São João Maria Vianney, também conhecido como o Santo Cura de Ars.

A pequena cidade, onde aquele humilde pároco exerceu o seu ministério, ficou mundialmente conhecida pela figura extraordinária de um padre que pelo seu exemplo conquistou corações para Cristo.

Conta-se que, por suas dificuldades nos estudos, especialmente com a língua latina, na época tão essencial para um padre, quase não o ordenam. No entanto, quis a Providência divina mais uma vez nos surpreender, fazendo daquele homem um verdadeiro luminar na França do século XIX, tão impregnada pelo racionalismo iluminista.

Dois fatos marcam a sua chegada na pequena Ars. Ao designá-lo para o trabalho pastoral naquele vilarejo, o seu bispo lhe disse que naquele lugar havia pouco amor de Deus e que sua missão era colocar no coração dos fiéis esse amor. Um outro episódio interessante, atualmente representado num monumento à entrada da cidade, é o seu encontro com um menino a quem pergunta onde ficava a cidade. Na ocasião ele disse: “mostra-me o caminho de Ars que eu te mostrarei o caminho do céu”.

Nessas palavras do santo estão indicadas a missão de todo padre e a sua atualidade ao longo de todos os séculos. A carta aos Hebreus diz que “todo sacerdote é constituído em favor dos homens nas coisas referentes a Deus” (Hb 5, 1). Encaminhar seus irmãos na longa ou curta viagem dessa vida é a missão que todo padre tem, fazendo-se companheiro de viagem para que ninguém fique só e chegue a bom porto.

Bernanos (+ 1948), escritor e jornalista francês, escreveu que “se pode imaginar perfeitamente a Igreja como uma vasta empresa de transporte, transporte para o paraíso, por que não? Bem, pergunto, o que seria de nós sem os santos que organizam o tráfego? “(O predestinado). O Santo Cura de Ars soube não apenas organizar bem “o tráfego”, mas também fornecer os meios para manter a caminhada em bom ritmo e continuar na direção certa.

Ele tinha consciência de sua missão insubstituível. Ter clara a razão por que estamos neste mundo é muito próprio da vocação e ajuda a pessoa a concentrar todas as suas energias e afetos para aquele propósito. Apesar de sua condição simples, agigantou-se diante da missão, abrindo espaço para a ação de Deus em favor de seu povo. Interessava-lhe a pessoa toda. Cuidava delas, primeiramente por dentro, dedicando horas à escuta, pois sabia que “sem o cuidado do homem por dentro não pode haver salvação para a humanidade” (Bento XVI). Mas, ao mesmo tempo, não se descuidava dos pobres. Criou um pensionato chamado “A Providência”, onde, contando com a dedicação de algumas mulheres, abrigava meninas expostas a várias situações de risco, oferecendo-lhes oportunidades de crescimento conforme a dignidade da mulher. Onde Deus se faz presente, de verdade, o ser humano é ajudado a alcançar a sua autêntica liberdade e dignidade.

Por causa dessa figura extraordinária, cuja biografia vale a pena ser conhecida, o dia 4 de agosto ficou também conhecido como o dia do pároco. Todo padre encontra nele um exemplo e estímulo para o exercício de seu ministério. São João Maria Vianney mostrou com sua vida que o padre, que toda época necessita, tem sempre em si os traços da misericórdia de Jesus que se manifesta na luz da Palavra de Deus oferecida cotidianamente, nos sacramentos que são as mãos de Deus estendidas para a humanidade e na caridade de Cristo que se compadece diante das angústias da humanidade.

Neste dia do pároco nossa oração e nossa gratidão a todos os padres que no dia a dia se colocam do lado de todos os homens e mulheres, ajudando seus irmãos a alcançarem a meta da vida em plenitude, sendo para eles sinais da presença daquela esperança que não decepciona.

 

*Dom Gílson Andrade da Silva é Bispo da Diocese de Nova Iguaçu, integrada também pelas cidades de Nilópolis, Mesquita, Belford Roxo, Queimados, Japeri, Paracambi e pelo Distrito de Corando, em Miguel Pereira.

Paulo Cézar

PAULO CEZAR PEREIRA, também chamado de PC ou Paulinho da Baixada, aprendeu jornalismo nas redações de alguns principais veículos – rádios,jornais e revistas. Conheceu, como Repórter Especial do GLOBO, praticamente todos os estados brasileiros, as duas antigas Alemanhas antes da reunificação, Suiça, Austria, Portugal, França, Itália, Bélgica, Senegal, Venezuela, Panamá, Colômbia e a Costa Rica. É casado com Ana Maria e tem três filhas que já lhe deram cinco netos. Tem três paixões: a família, o jornalismo e o Flamengo. No passado, assessorou um governador, um senador, dois prefeitos e vários deputados. Comandou a área de Comunicação de Nova Iguaçu num total de 12 anos. Já produziu três livros : um para a Coleção Tiradentes, outro contando a evolução de Nova Iguaçu quando a cidade completou 170 anos, e o do jubileu de ouro da Diocese de Nova Iguaçu.