Uma semana difícil para Witzel

junho 1, 2020 /

*Paulo Cezar Pereira 

 

O governador Wilson Witzel começou a entregar os anéis para não perder os dedos. Sem base na ALERJ, ele está nas cordas do ringue da política, golpeado  pela direita, pelo centro e pela esquerda. Nos últimos dez dias exonerou quatro secretários e sinaliza que outros integrantes do primeiro escalão estão na linha de tiro. Sabe que precisa salvar seu governo e , na Assembléia Legislativa, o próprio mandato que a o voto produzido pela onda bolsonarista lhe deu no Rio. No combate à Covid-19, Witzel vai flexibilizar atividades comerciais, embora as principais cidades do estado do Rio de Janeiro estejam perdendo de goleada no combate à propagação do vírus.

Para impedir que vá adiante pedidos de impeachment, começou a agir nos bastidores: o futuro Secretário de Polícia Civil, especula-se,  será o deputado estadual Carlos Augusto, do PSD. Ele é o delegado que ficou conhecido como comentarista de segurança pública do noticiário regional do SBT, onde começou a construir sua base eleitoral oito anos atrás.

Além de ter que enfrentar a Polícia Federal , a PGR, o STJ e o MP no escândalo de R$ 800 milhões dos 66 contratos emergenciais, dos quais 443 foram suspensos depois que as irregularidades foram denunciadas, Witzel tem outros problemas em sua pauta. Sem os hospitais de campanha,que deveriam ser usados no enfrentamento da pandemia do coronavírus mas que que até agora não foram entregues à rede hospitalar,  o governador caiu na real. Numa reunião que durou cinco horas, sexta-feira última,  jogou a toalha. Afirmou que o caixa estadual não terá dinheiro para honrar compromissos com os servidores em julho se o governo federal não liberar nos próximos dias a ajuda emergencial aos estados e municípios já aprovada pelo Congresso.

Roberto Medronho, da UFRJ, afirma que não é hora de flexibilização no Rio e em algumas cidades da Região metropolitana

Nesta segunda-feira ( 1/06), durante entrevista ao Bom Dia, Rio, da TV Globo, o renomado infectologista Roberto Medronho, da UFRJ, integrante de um Conselho Científico que sugere ações contra a pandemia no Rio, revelou que as medidas de flexibilização das atividades  comerciais que serão anunciadas hoje pelo governador do Rio são consequências do cofre vazio. ” O governador disse que poderá não ter dinheiro para pagar os médicos e outros profissionais de saúde, o que vai ser um caos”, alertou Medronho.

O infectologista, citando dados científicos, afirmou que é um erro gravíssimo do governo estadual flexibilizar atividades comerciais na semana em que a curva ascendente da Covid-19 mostra, com números, que o Rio e suas cidades da Região Metropolitana estão vivendo o período do pico da Covid-19.

Medronho é um dos especialistas que vem se manifestando contra a contratação milionária, sem licitações, de oito hospitais de campanha em várias regiões do estado. Ele e outros sugeriram, 40 dias atrás, que os recursos disponíveis fossem utilizados preferencialmente na contratação de leitos de UTI ociosos na rede privada. São 800 leitos disponíveis no Rio. No entanto, o estado optou em montar tendas milionárias no Rio, em São Gonçalo, Nova Iguaçu, Casemiro de Abreu e em Campos. Quem também está pondo a população de São João de Meriti em risco é o burgomestre Dr. João. Com 868 casos confirmados do novo coronavírus e 86 mortos registrados até ontem em Meriti, ele liberou o funcionamento do comércio, com restrições, a partir de hoje.

O hospital de campanha de Duque de Caxias, que deveria ser entregue hoje aos pacientes de Covid-19, ainda é um canteiro de obras – e os dois modulares de Nova Iguaçu até hoje não estão prontos, embora o governo estadual já tenha anunciado até agora cinco datas diferentes para que eles fossem entregues à população. Diante do escândalo de corrupção que envolve a contratação da organização social Iabas com o esquema de corrupção que,segundo o MP federal apurou, era comandado pelo empresário Mário Peixoto, preso atualmente em Bangu 8, o governo estadual estuda a possibilidade  de entregar a administração dos hospitais de campanha a um consórcio empresarial que administra, com êxito, hospitais da rede privada no Rio.

Os primeiros sinais de corrupção no governo estadual chamaram a atenção de alguns deputados estaduais e federais do Rio. Com livre trânsito no Palácio Guanabara, um deputado estadual procurou o governador Witzel para informá-lo que algumas ações administrativas tomadas por alguns secretários poderiam lhe criar sérios problemas mais adiante na Alerj. O secretário de Desenvolvimento Econômico e Geração de Emprego e Renda, Lucas Tristão, foi citado mais de uma vez como um dos problemas de Witzel com o parlamento. O governador reagiu, na ocasião, com cara de paisagem.

Além da crise com os contratos emergenciais milionários, Witzel precisa de construir pontes com o governo federal. As que ele estava construindo no ano passado ruíram depois do estremecimento de suas relações com o presidente Jair Bolsonaro, com o qual está rompido. É neste ambiente, acrescido das manifestações antirracistas, ontem,de grupos de direitos humanos na porta do Palácio Guanabara que o governador começa mais uma semana imprevisível.

*Paulo Cezar Pereira é Jornalista

 

fotos: reprodução da Tv Globo