Predinhos, prédios e prediões

setembro 9, 2020 /

* Vicente Loureiro

 

 

Ainda não são muitos os edifícios neste bairro das minhas caminhadas matinais. Pouco mais de duas dezenas, talvez três , corporificam esta forma de adensamento urbano aportada por aqui há 40 anos. Em sua maioria são singelos e pouco elaborados arquitetonicamente falando, mas de um modo geral não chegam a agredir os olhos. Foram compondo a paisagem do lugar e dela se aproveitando. Parecem, até aqui, bem casados com ela.

 

Os pioneiros foram os prédinhos de três ou quatro pavimentos plantados por volta dos anos 80 do século passado. Costumavam concorrer com as vilas. Tinham uma vantagem, a de demandar lote menores e uma desvantagem, a de custar um pouco mais caro. Mais tarde um pouco, na virada do século, começaram a chegar os prédios de porte médio. Com 6 ou até 8 pavimentos além do pilotis eles tinham, até então, volume mais avantajado na paisagem do bairro. Infelizmente ao contrário dos prédinhos, nenhum exemplar chega a merecer destaque por conta de sua arquitetura.

São mais do mesmo, feiosos até. Mesmo assim, não deixaram de causar sensação de lugar em progresso. Com suas duas ou três dezenas em média, de apartamentos por edifício, eles ajudaram a dinamizar o mercado imobiliário , consagrando uma tendência de contínuas e permanentes transformações e o consequente aumento da população local.

Recentemente, de 5 a 10 anos pra cá , os prediões deram o ar de sua graça no bairro. Brotando de lotes maiores, em torno de mil metros quadrados, estes agigantados edifícios consagraram o crescimento vertical aparentemente irreversível por essas bandas. Trouxeram para a vida do bairro perto de uma centena de famílias em cada novo lançamento. São poucos ainda. Contam-se nos dedos da mão. Porém, suas proeminentes silhuetas fazem o Skyline (linha do horizonte) do entorno mudar definitivamente de feitio.

Por exigirem, para sua implantação, terrenos de grandes dimensões, os prediões não devem ter futuro promissor por aqui. Uns 4 ou 5 podem brotar nas redondezas nos próximos anos. Irão garantir , com sua pegada, o mesmo impacto gerado por igual número de ruas tipicas daqui. Ou então por cinco ou seis prédios de porte médio ou por até de dez vilas ou prédinhos. Sem dúvida, seus impactos serão sentidos, os positivos também, mas principalmente os negativos.

Há aspectos favoráveis e desfavoráveis em cada uma das diferentes tipologias de moradias, visando adensamento do bairro, demonstradas neste artigo. Todas tentando dar conta de um problema que a legislação urbanística não conseguiu ainda estancar: a hiper valorização do preço da terra . É ela a principal causa para estratégias adotadas tão distintas. Mas todas voltadas ao uso mais intenso possível do solo. A simples adoção do IPTU progressivo sobre lotes vazios, em nítida posição de mera especulação, ajudaria bastante o poder público na regulação mais equilibrada, no processo de ampliação do estoque de imóveis por aqui.

As outras leis urbanísticas, como complemento, contribuiriam  para desenhar melhor a paisagem do bairro, tornando-a mais agradável e sustentável. Poderiam ser usadas variadas tipologias de moradias. Muito mais para assegurar diversidade nos tipos e tamanhos das habitações dos futuros moradores do que para garantir sobrelucro fundiário no preço dos terrenos. Os benefícios do desenvolvimento, fruto do esforço coletivo de toda a cidade,  não podem ser apropriados por alguns poucos.

 

* Vicente Loureiro, arquiteto e urbanista,doutorando em urbanismo na Universidade de Lisboa e autor do Livro Prosa Urbana.