Os sons de Nova Iguaçu e o roubo do nosso dinheiro

julho 31, 2020 /

*Paulo Cezar Pereira

 

Da varanda do apartamento em que resido, eu ouvia, em abril  último, três sons com significados diferentes: o do badalar do sino da catedral de Santo Antônio de Jacutinga, de hora em hora,  das 7 às 22 horas, o dos trens da Supervia, a partir das 4 horas da madrugada,  toda vez que  se aproximam da estação do Centro de  Nova Iguaçu, e o da sirene estridente que divulgava um texto da Prefeitura falando da letalidade do novo coronavírus e no final da mensagem convocava a população a permanecer em casa para não ser infectada pela doença. Na ocasião, com o comércio fechado, poucos carros nas ruas, o som  da sirene era um poderoso aliado para combater a disseminação da Covid-19.

O som que, infelizmente,  sinto falta hoje, como se fosse a picada da vacina que ainda não ficou pronta, é o da sirene que me fazia lembrar os bombardeios dos aviões da Alemanha nazista de Adolf Hitler sobre Londres nos filmes sobre a Segunda Guerra Mundial. Nos telejornais e nas redes sociais, ainda em abril,  o prefeito Rogério Lisboa falava, ao vivo, da escolha de nossa cidade para aqui serem montados, na área do aeroclube,  dois hospitais para o enfrentamento da pandemia em Nova Iguaçu: um deles permaneceria no município, como legado e reforço no sistema hospitalar da região, e o segundo seria o de campanha, exclusivo para o atendimento de pacientes da Covid-19.

Hospital de campanha de Nova Iguaçu, que nunca foi inaugurado, custou R$ 65 milhões e agora será desmontado

As chegadas de homens , máquinas e equipamentos hospitalares eram anunciados quase diariamente , solenemente,  nos encontros dos prefeitos e secretários municipais da Baixada Fluminense com o governador Wilson Witzel e o seu então secretário de saúde Edmar Santos. No Bom Dia, Rio, o telejornal comunitário de maior audiência do Rio, Witzel e Edmar eram presenças diárias no estúdio da emissora ou pelo celular detalhando os recursos de mais de R$ 1 bilhão de reais em contratos emergenciais para socorrer as cidades.

Disputava-se até mesmo quem era mais rápido na entrega daqueles futuros hospitais. A Rede D’Or chegou a distribuir à imprensa um vídeo para festejar seu feito: montou e inaugurou em 19 dias, numa parceria com a iniciativa privada e o Sistema Único de Saúde, um hospital de campanha no Riocentro. Enfim, era questão de tempo ficarem prontos os de Nova Iguaçu.

Mas não foi uma questão de tempo. Perdemos para um grande e organizado esquema de corrupção  o nosso hospital de campanha e mais seis unidades modulares prometidos para outras cidades do Rio. Os dois hospitais de Nova Iguaçu, com capacidade para 400 leitos, nunca ficaram prontos, embora quatro datas tivessem sido anunciadas pela secretaria estadual  de saúde para entregá-los. Até hoje não se sabe o valor total do roubo milionário que envolve “autoridades” do governo estadual  e empresários sem qualquer escrúpulo . A cada dia surge uma novidade, um novo número, uma nova investigação.

Na Assembléia Legislativa do Rio, deputados de vários partidos estão convencidos de que o governador do Rio não é inocente nas irregularidades denunciadas na escolha das organizações sociais, como o Iabas, para tocar a montagem dos hospitais de campanha. Para se defender, Witzel já chegou a divulgar um vídeo em que afirma não ser ladrão. Ao longo dos últimos quatro meses, o secretariado estadual mudou muito. Alguns secretários abandonaram o governador. O último a cair fora, foi o de Comunicação, após uma passagem relâmpago no cargo.

Edmar Santos e Gabriel Neves, o subsecretário estadual de saúde que preparou os contratos emergenciais, estão presos. Witzel está por um fio para ser afastado por um impeachment do cargo mais importante do estado.  Segundo deputados, são muitas provas de corrupção já divulgadas pelas  Polícias Federal e Civil, PGR e MP do Rio.

Em meio a toda esta crise escandalosa, Nova Iguaçu, que sempre esteve entre os cinco municípios com os maiores números de óbitos por Covid-19,  registra 427 mortes pelo coronavírus e um acumulado de  4.120 casos confirmados em 4 meses. Candidato à reeleição, Rogério Lisboa ainda não deu um só pio publicamente sobre o anúncio do fechamento do hospital de campanha que nunca foi aberto em sua cidadee nunca informu quanto a Prefeitura gastou nesta parceria.

Em meio a todo este mar de lama da corrupção que, no Rio,  ganhou visibilidade durante a pandemia, surge agora mais uma preocupação: a média do número de mortes no estado do Rio de Janeiro, que chegou  a cair nas duas primeiras semanas deste mês e depois se estabilizou, subiu 27% depois das medidas de flexibilização contidas em decretos assinados por Wilson Witzel e pelos prefeitos da Região Metropolitana do Rio. A julgar pelo número de pessoas sem máscaras  nas ruas, no comércio, calçadão, nos shoppings e nos transportes públicos, não será surpresa para ninguém se voltarmos a ouvir o som estridente da  sirene do carro da Prefeitura novamente no centro residencial de Nova iguaçu.

 

*Paulo Cezar Pereira é Jornalista

 

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