Intangivel mas concreto

setembro 15, 2020 /

 

*Vicente Loureiro

 

Parece um sacrilégio falar de condições  imateriais indispensáveis a uma vida urbana digna, onde faltam ,ainda, bens e serviços concretos ditos essenciais . Mas é necessário pois ninguém vive só do tangível. Há muito de valor e significado em práticas e hábitos de convivência entre seres urbanos,   ao mesmo tempo inegociáveis, por não terem preço, porém já  enraizados no modo de viver dos habitantes de determina cidade.

A participação constante e por vezes com fervor, em cultos, rituais, festas, entre outras manifestações religiosas.  A escolha, de certo modo aleatória,  de determinados bares  como locais de encontro para se jogar conversa fora ou simplesmente matar o tempo. A frequência a miúde e a bailes, shows ou baladas para curtir, azarar ou ver e ser visto. Caminhadas ou corridas cotidianas por espaços públicos a cuidar da saúde e arejar a mente. Ou então malhar ou praticar esportes constantemente formando grupos de interesse. São, entre outras, atividades que podem não configurar um bem imaterial a merecer destaque ou alguma notificação dos estudiosos da cultura, a cerca da relevância do patrimônio, de certa  comunidade ou região. Mas fazem, a seu modo,  as pessoas envolvidas nesses entrelaçamentos  urbanos se sentirem parte ativa do grupo ou do lugar.

Para elas é não só valioso como fundamental tal participação. Pode ser duradoura, mas como diz o poeta,será eterna enquanto existir ou despertar vontade. E são a tais aspectos intangíveis da vida urbana, que parece ser necessário estarmos alertas e atentos . Serão  deles que irão brotar demandas ainda não atendidas por espaços públicos mais generosos e convidativos a práticas do estar e usufruir deles. Apropriações,  para além daquelas de meramente por eles passar.

Assim calçadas largas capazes  de receber mesas e cadeiras sem atravancar o caminho dos pedestres, e bem iluminadas e arborizadas podem criar cenários agradáveis, propícios ao estabelecimento de botecos onde é bom  ficar por algum tempo.  Da mesma forma o percurso a pé, seguro e sem obstáculos,  para andanças profiláticas, resultantes de dígitos a mais na balança ou no exame de sangue, precisa ser encarado como necessidade básica de saúde e bem-estar . Assim como as praças com academia ao ar livre, playground e quadras poliesportivas passam a figurar, cada vez mais ,como um gênero de primeira necessidade em busca da urbanidade perdida.

O respeito e tolerância a todas as práticas religiosas também faz da cidade um lugar melhor de viver. As quermesses, procissões, louvações ,despachos e etc. realizados no espaço público fazem deles ambiente de paz, concórdia e harmonia. Tais eventos ampliam o alcance das irmandades, entrelaçam grupos religiosos distintos, interagem até com ateus e agnósticos.  Levam a vida urbana para mais próximo de sua essência: a de abrigo da pluralidade de pensamentos e atos. E de convergência das regras de respeito ao cidadão.

 

Talvez uma dessas ou outras manifestações do viver urbano contemporâneo, aqui neste recanto Metropolitano, possa um dia  virar um bem imaterial de reconhecida relevância para a valorização da cultura da gente daqui ou mesmo de toda a região.  Pode ser que não. O que importa é que se possa sempre, entre manilhas,  postes, pavimentos e outros artefatos  urbanos concretos, deixar sempre espaço livre e desimpedido para esse modos imateriais de fazer ou tentar fazer o viver urbano melhor, mais inclusivo e respeitoso.  A cidade vive do concreto mas alimenta-se do intangível.
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*Vicente Loureiro,arquiteto e urbanista,doutorando em urbanismo na Universidade de Lisboa e autor do Livro Prosa Urbana.