Entre vilas e becos

agosto 31, 2020 /

 

*Vicente Loureiro

 

 

Noutro dia falamos aqui de uma das estratégias utilizada para aumento do número de imóveis dedicados à  moradia no bairro onde costumo caminhar toda manhã. A de subdividir terrenos entre 9 e 12 metros de testada em 2, 3 e as vezes até 4 parcelas para receberem a construção de casas com frente de 3 a 6 metros. Tipologias distintas foram destacadas demonstrando o aproveitamento máximo das novas frações com construções de 1,2 ou 3 pisos no máximo.

Hoje trataremos de uma outra estratégia de adensamento urbano. A de transformar lotes unitários ou remembrados em vilas. Ou como gostam alguns em edifícios deitados. Mais simples e baratas de construir, pois dispensam elevadores, estruturas e instalações mais robustas, essas edificações costumam agrupar casas geminadas por vezes assobradadas, ladeando uma via de acesso comum. Comportando na maior parte dos casos de 6 a 8 unidades.

De um modo geral tentam deixar a entrada e saída de automóveis circunscrita à parte do terreno destinada a cumprir o afastamento frontal obrigatório. Onde por lei é proibido construir. Ficando a rua de vila exclusiva à circulação de pedestres ou a reserva de um mimo paisagístico qualquer. Normalmente se apresentam gradeadas para o espaço exterior. Mas há casos também de muros altos e sisudos , tornando – as indevassáveis quase incógnitas. São vilas mas o modismo insiste batizar de condomínio. Na prática, a versão da maioria dos moradores acaba por ficar no meio termo. Referem – se a seu endereço dizendo: ” moro num condominialzinho”. Um desses mistérios,criados pelo mercado imobiliário, parece fazer acreditar o valer menos uma casa de vila. Ainda que assim seja de fato, não deve parecer que é. Vai entender?

São dezenas delas espalhadas pelo bairro. Algumas bem agradáveis e convidativas ao olhar externo em atenção aos seus detalhes e espírito de recanto tranquilo de viver. Outras não, muito esmirradas passam mais sensação de agrupamento amontoado e sem graça de casas, onde os ambientes privados e semipúblicos se entrelaçam de tal modo que o desconforto faz o olhar de quem passa não guardar atenção por ali.

Não se vê novas vilas sendo construídas. Uma pena. Faz tempo estão sendo substituídas por predinhos, prédios e prediões. Exemplares de uma outra estratégia de crescimento do bairro a merecer um outro artigo. As vilas, em que pese o aproveitamento intenso do solo, não agrada muito as forças de mercado. A valorização do preço da terra parece ser a justificativa para este descarte. Lamentável, o semblante urbanístico do bairro ganha muito com a presença delas. Traz um certo ar bucólico. Afinal elas são muito mais dadas a uma convivência efetiva e afetiva entre seus moradores do que a experimentada em edifícios verticais, normalmente mais impessoais.

Há um outro jeito de aproveitar ao máximo os terrenos ou suas frações. Refiro-me aos becos. Vielas interligando ruas, salpicadas de casas também geminadas e de 1 ou 2 pisos. A principal diferença em relação as vilas está na variedade de tipos de habitações nelas construidas. Fruto de soluções obtidas ao longo de anos e por vontade própria de cada morador. Não resultando portanto na costumeira harmonia do correr de casas das vilas. De origem mais antiga os becos parecem mais degradados ainda que grades nas suas cabeceiras já façam do seu status de logradouro público original um território privatizado.

 

A mistura de tantos modos  de morar distintos empresta ao bairro diversidade não só das edificações, mas também dos níveis de renda de seus moradores. Esta saudável pluralidade torna o viver ou passar pelo bairro uma experiência salutar. Daí talvez advenha a razão dele estar a atrair cada vez mais novos edifícios. Transformando – se num lugar a merecer especial atenção do poder público local para não perder características tão singulares. Indispensáveis ao desenvolvimento da cidade alicerçado em espaços públicos de mais qualidade, garantidores de maior coesão sócio territorial para seus moradores.

*Vicente Loureiro, arquiteto e urbanista,doutorando em urbanismo na Universidade de Lisboa e autor do livro Prosa Urbana.