As Mil e Uma Noites

agosto 25, 2019 /

“O governo corre atrás do próprio rabo, inclusive quando atribui ao aquecimento global a ocorrência das queimadas. Trata-se de um argumento a mais para preservar a Amazônia”

A tradução mais fiel e sofisticada de As Mil e Uma Noites é do explorador inglês Sir Richard Francis Burton, em 16 volumes, lançada entre 1885 e 1888, com suas notas sobre as culturas persa e árabe e relatos de hábitos sexuais, inclusive de homossexualismo masculino e feminino. O clássico da literatura fantástica é uma coletânea de histórias reunidas durante séculos, inicialmente surgidas na Índia, por volta do século 3. Seus gênios, metamorfoses de animais e semideuses lembram o imaginário hinduísta. Essas histórias viajaram pela Pérsia, contadas pelos mercadores, sendo reunidas, a primeira vez, numa coletânea anônima intitulada Hezar Afsaneh (“Os Mil Contos”), na qual já apareciam o sultão Chahriar e sua esposa infiel, Sheherazade.

Traduzidos para o árabe, por volta do século 8, ganhou carga heroica e forte influência islâmica, inclusive no título, por causa da superstição de que números redondos dão azar. Por isso, passou a se chamar As Mil e Uma Noites. Há três versões árabes, uma síria, uma egípcia antiga e outra egípcia tardia. Por volta de 1700, as histórias chegaram ao Ocidente, traduzidas pelo francês Antoine Galland, de um manuscrito do ramo sírio do século 13, no qual incluiu as histórias de Ali babá e os Quarenta Ladrões, Aladim e As Viagens de Simbá, o marujo.

Burton (1821-1890) é um capítulo à parte. Antropólogo, espião, espadachim e poeta, foi cônsul britânico em Santos e escreveu três livros sobre o Brasil. Ex-aluno de Oxford, como capitão da Companhia das Índias britânica explorou a Índia, o Oriente Médio e a África. Em 1856, disfarçado de médico afegão, peregrinou a Meca e visitou a Caaba – santuário supremo dos muçulmanos. Logo depois, viajou à cidade santa de Harar, na Etiópia, de onde nenhum homem branco jamais saíra com vida. Em 1858, realizou o feito pelo qual é mais lembrado: descobriu o Lago Tanganica. A jornada, em companhia do explorador John Speke, que depois se tornou um desafeto, foi retratada em 1990 no filme As Montanhas da Lua. Speke descobriu o Lago Vitória, mas erroneamente concluiu que seria a nascente do Nilo, contra a opinião de Burton.

Burton falava 26 línguas e também traduziu os clássicos da literatura erótica Kama Sutra e o Jardim Perfumado, além do épico renascentista Os Lusíadas, de Camões. Suas traduções e relatos antropológicos escandalizaram a sociedade vitoriana da época, a ponto de sua mulher queimar seus manuscritos, mas isso não impediu a rainha Vitória de lhe conceder o título de Sir, em 1896, por serviços prestados à Inglaterra no “grande jogo” no Oriente, a disputa por áreas de influência com outras potências europeias, sobretudo a França e a Rússia. Quatro anos depois, Burton morreu em Trieste, na Itália, passando à história como aventureiro erudito e temerário. Sofria de depressão, era viciado em ópio, haxixe e bebidas alcoólicas e, ao morrer, revelou cicatrizes nas costas que levantaram suspeitas de que havia se convertido ao sufismo, uma linha mística do islamismo.

Erro de conceito

Numa das passagens de As Mil e Uma Noites, o sultão diz para Sheherazade: “Aquele que não sabe adaptar-se às realidades do mundo sucumbe infalivelmente aos perigos que não soube evitar. Aquele que não prevê a consequência dos seus atos não pode conservar os favores do século”. Parece sob encomenda para o presidente Jair Bolsonaro, que hoje, Dia do Soldado, completa 237 dias no poder, em meio a uma crise internacional sem precedentes, provocada por ele mesmo, por causa de um brutal erro de conceito na sua estratégia de governo em relação a um dos quatro principais temas da atualidade: a sustentabilidade. Os outros são a democracia , o crescimento econômico e as desigualdades.

Nada como um dia atrás do outro. A atmosfera não tem fronteiras, a questão ambiental deixou de ser um assunto nacional após a Conferência do Clima, da qual o Brasil foi um dos principais protagonistas. Quando se erra no conceito, quanto maior o ímpeto na estratégia, maior o desastre. A narrativa de Bolsonaro potencializou a crise internacional, que estava escrita nas estrelas por causa do desmantelamento da política ambiental e dos órgãos de controle, fiscalização e combate ao desmatamento. Foi uma sucessão de erros cometidos quase que diariamente, além de uma subestimação das implicações internacionais que o assunto tem, por uma visão ideologizada das relações diplomáticas e uma postura provinciana e chauvinista.

Bolsonaro perdeu a batalha da comunicação no terreno em que se achava imbatível, as redes sociais, e o Brasil enfrenta inédito isolamento internacional, cujo preço pode ser a adoção de sanções pelos países da União Europeia contra as exportações brasileiras de carne e de soja, por causa do avanço da fronteira agrícola na Amazônia. O governo corre atrás do próprio rabo, inclusive quando atribui ao aquecimento global a ocorrência das queimadas, comparando-as aos incêndios que ocorrem nos Estados Unidos e na Europa pela mesma razão. Trata-se, porém, de um argumento a mais para preservar a Amazônia. Bolsonaro ainda tem mais de mil e uma noites para repensar suas políticas e recuperar o prejuízo, pois ainda lhe restam 1224 dias de mandato.

Luiz Carlos Azedo, jornalista, é colunista do Correio Braziliense