As flores e a cidade

setembro 22, 2020 /

 

*Vicente Loureiro

 

Hoje, mais precisamente às 10h31, inaugurou-se mais uma primavera. O equinócio, fenômeno astronômico onde o sol atinge com maior intensidade as regiões próximas à linha do Equador, fazendo os dias terem a mesma duração das noites, tanto no hemisfério norte quanto no sul, é o responsável pela chegada da chamada estação das flores. Aquela onde muitas delas desabrocham com o aumento das chuvas e da temperatura.  É quando a natureza fica mais colorida.

Lisboa, Portugal

Spello, Itália

Provença, França

 

E nas cidades, como é a chegada da primavera? Não costuma ser igual. Há cidades mais primaveris que outras. Possuem espaços e atitudes dedicadas ao verde e às flores e por conta disso acusam com mais veemência a chegada da estação do ano mais florida e perfumada. Já outras não.

Algumas delas, no Brasil inclusive, possuem programas destinados a florir seus espaços públicos, para além da primavera, atingindo em alguns casos entre 8 a 10 meses de floração. Utilizam, para tal, pedaços das calçadas, canteiros centrais de avenidas, largos e praças, até rotatórias do sistema viário. O resultado tem feito tão bem à vista e autoestima da população, que já aconteceu até indicação de vereador em Santos-SP, para que determinado logradouro daquela cidade pudesse merecer um mimo, através do plantio e cultivo de

Via Light, Nova Iguaçu

flores.

Itália

Gramado, RS

 

Há também os casos mais clássicos. Praticados nos calçadões ou ruas principais do comércio. Utilizando-se, quase sempre, de artefatos tipo jardineiras e cachepôs, com intuito de embeleza-los e tornar mais ameno e prazeroso o ato de por eles transitar. Locais geralmente muito movimentados por gente cheia de pressa e afazeres. Algumas cidades, mais ousadas, chegam a usar postes como suporte de jardineiras suspensas. Batizados como postes Babilônia, tem o mesmo intuito: o de causar encantamento e até certa surpresa.

Via Light, Nova Iguaçu

Nas fotos de Alziro Xavier, a primavera na Via Light, em Nova Iguaçu

 

Mas não ficam só a cargo do poder público, os esforços de plantar encantamento com flores. Alguns moradores transformam jardins, sacadas e parapeitos das janelas em verdadeiras floreiras. Dando assim, sua contribuição para também aprimorar e colorir a cidade. E são essas iniciativas que nos fazem crer na possibilidade de derrotar o vandalismo, apesar da brutalidade de seu poder destrutivo. E ainda que o custos de manutenção de florir os espaços urbanos não devem servir de biombo, para esconder a falta de sensibilidade, a beleza gratuita e espontânea, trazida pelo cultivo permanente das flores.

 

*Vicente Loureiro, arquiteto e urbanista,doutorando em urbanismo na Universidade de Lisboa e autor do Livro Prosa Urbana.